O vento pré-histórico carregava consigo a aspereza de um mundo ainda não domado, misturando o salitre do mar distante com o odor de terra queimada. O céu, tingido de um laranja, parecia derreter sobre o penhasco onde três figuras lutavam pela sobrevivência. Crono, com sua katana reluzente, Marle, de arco tensionado, e Lucca, ajustando os óculos e a mira, formavam um triângulo defensivo contra a horda de reptites. As criaturas, escamosas e famintas, avançavam em ondas, suas garras e presas a mostra prontas para atacar. Cada golpe dos viajantes era respondido com um rugido gutural, uma língua reptite que ecoava ameaças de um tempo antes das palavras.
— Eles não param! — gritou Marle, cravando uma flecha no olho amarelo de um reptite, que desmoronou com um guincho.
— Matemática pré-histórica: derrote um, vêm dois — ironizou Lucca, disparando um jato de fogo que engoliu três bestas, mas outras surgiram das sombras, escorrendo das fendas do penhasco.
Crono girou a katana em um arco. Seus músculos tensionavam-se arduamente sob a camisa suja de terra, mas seus olhos denunciavam a fadiga. A queda através do portal os deixara em um desfiladeiro estreito, onde as rochas afiadas os encurralavam, deixando-os sem saída. Pressionados, respirando a tensão uns dos outros, não perceberam o rugido que vinha das alturas.
Até que o céu se partiu.
— HYAARGH!
Uma figura irrompeu da selva, envolta em uma aura de poeira e fúria. Uma silhueta bronzeada, cujas pernas musculosas impulsionaram-na como uma flecha humana. Seus cabelos loiros esvoaçaram ao vento enquanto seus punhos cerrados esmagavam crânios reptilianos com precisão brutal. Cada movimento era de uma brutalidade incontida, selvagem, cotovelos quebrando ossos, joelhos estilhaçando mandíbulas, um redemoinho de força primitiva. Em segundos, uma dúzia de corpos jazia a seus pés.
— Você... quem é? — Marle engoliu as palavras, fascinada e intimidada pela mulher que agora a encarava. Ayla não respondera. Em vez disso, avançou sobre Crono como um tufão.
— WAH!
O herói foi arremessado contra uma rocha, o impacto ecoando pelo cânion. Antes que pudesse reagir, mãos calejadas percorreram seu corpo com uma ousadia que fez Lucca engasgar de riso.
— Homem forte... — declarou Ayla, os dedos avaliando bíceps, tórax, a curva dos quadris. Seu olhar azul-ferro não era lascivo, mas calculista, como se medisse carne para um banquete. — Bom para lutar. Bater.
Marle corou até as orelhas, uma mistura de indignação e ciúme fervendo em suas veias. — Ei, larga ele! — protestou, mas Ayla já se voltara para ela, narinas dilatadas como um animal farejando rivalidade.
— Mulher forte também. — rosnou, com um sorriso maldoso. — Ayla gostar forte! Homem. Mulher.
Lucca, agora sentada em uma pedra com os óculos embaçados de tanto rir, mal conseguia respirar. — Gente o tabu ainda não nasceu! Ainda bem que sou fraquinha!
Ayla ignorou a piada. Com um movimento fluido, agarrou Crono — que já tentava se desvencilhar saindo de canto — pelo queixo, forçando-o a encarar seus olhos intempestivos.
— Você vir com Ayla. Aldeia ter dança, carne, bebida que faz ver dois sóis.
Crono, preso entre o constrangimento e uma admiração involuntária, balbuciou algo inaudível. Marle cruzou os braços, o pé batendo no chão em ritmo irritado.
— Nós não temos tempo para isso! — ela protestou, mas Ayla já os empurrava colina abaixo, sua risada ecoando como o rugido de uma catarata.
— Ei! Espera! Precisamos achar uma pedra! — gritava Lucca enquanto era levada pelo furacão loiro.
— Pedra?! Vila ter muita pedra! Aqui! Ali! Muita pedra! — gritou, enquanto saltava na frente deles, guiando-os para Ioka.
Na aldeia Ioka, sob um céu agora salpicado de jovens estrelas, as fogueiras cuspiram faíscas que se misturaram à dança dos xamãs. Crono, envolto em uma capa de peles desconhecidas, tentava ignorar o modo como Ayla o observava — um olhar que misturava posse e desafio. Marle, ao seu lado, mordiscava carne assada enquanto admirava o ambiente da aldeia.
— Isso é tão incrível... — sussurrou Marle, admirando.
— ...
— Demais, não é Crono? — Lucca chegava perto: — ...aposto 100 gems que essa selvagem vai arrancar o escalpe da sua cabeça antes do amanhecer, se é que me entende. — sussurou para ele.
Crono virou-se pra ela, chocado e negando a falácia. Lucca ria.
A vila de Ioka pulsava como um coração selvagem sob o céu cor de âmbar do crepúsculo. As cabanas, feitas de troncos entrelaçados e folhas secas formavam um círculo intencional em torno da clareira central. Ali, os aldeões dançavam em espirais hipnóticas, seus pés marcando a terra enquanto as fogueiras crepitavam para o firmamento. O ar era denso com o perfume de ervas queimadas e gordura animal, enquanto crianças, com os rostos pintados de ocre e carvão, perseguiam-se brandindo lanças de gravetos. Seus gritos ecoavam até as selvas circundantes, imitando os rugidos dos reptites que habitavam as sombras das montanhas distantes.
Ayla avançava pela multidão como uma tempestade de vitalidade, seu cabelo loiro balançando em mechas embaraçadas. Seus olhos azuis, tão claros quanto as águas do cristalino oceano que rodeava a pangeia, brilhavam com uma centelha de desafio. Puxando Crono pelo braço — cujas madeixas flamejantes contrastavam com a penumbra que caía —, ela apresentava os forasteiros aos seus irmãos de tribo com orgulho desmedido.
— Guerreiros do dia depois de amanhã! — anunciava, erguendo as mãos como se invocasse os deuses antigos.
Os aldeões riam, não compreendiam o título, o que levava Lucca a resmungar sobre tentar ter dito algo mais compreensível. Marle, de vestes azuis já manchadas de lama e cinzas, sorria com uma inocência que até então só conhecera nos jardins de Guardia, enquanto Crono gentilmente aceitava o odre de bebida fermentada que Kino lhe entregava com um gesto examinador.
Kino.
O guerreiro até então permaneceu à margem, sua silhueta era esculpida em linhas duras sob a copa de uma árvore anciã. Seus dedos calejados apertavam uma pedra lascada, e seus olhos estreitos seguiam cada movimento de Ayla. Ela, que sempre liderara caçadas e guerras com ele ao lado, agora parecia enfeitiçada pelo "homem de cabelos de fogo". Cada riso dela ecoava como uma faca em seu peito. Até que Ayla o vira e o convocasse para conhecer e servir Crono e seus amigos a bebida local.
— Kino azedo! — zombou Ayla, dando-lhe uma palmada nas costas. — Hoje ser dia de festa, não de ser bobo.
Ele não respondeu. Apenas voltou para as sombras enquanto os tambores aceleravam seu ritmo.
A noite engoliu o sol, e as fogueiras tornaram-se estrelas terrestres. Os corpos suados dos guerreiros projetavam sombras grotescas nas árvores, enquanto o xamã da tribo, coberto de penas de harpia, entoava cânticos que faziam espíritos dançarem. Ayla, sentada sobre uma pele de javali, devorava um pedaço de carne com os dedos, manchando seu colar de dentes de... tigre dentes-de-sabre.
— Uma vez, reptites atacar Ioka na Lua de Sangue... — contava ela a Crono e Marle, gesticulando com o osso que ainda segurava.
— Kino e Ayla lutar até sol brilhar! Mas se reptites vir hoje... — Ela inclinou-se para frente, seu sopro quente tocando o rosto de Marle — ...hoje, não ter luta, ter massacre.
Marle riu, mas seu sorriso congelou quando percebeu Kino observando-os desde a escuridão
— Ayla ver amigos lutar, amigos lutar forte, como Ayla! — Ayla dizia, dispensando o osso, lançando-o na fogueira. — Reptites não ter chance.
Enquanto isso, Lucca debatia-se com conceitos pré-históricos. Uma xamã, um mulher velha cuja pele era um mapa de cicatrizes, inclinava-se sobre os desenhos que ela riscara no chão: círculos concêntricos, linhas quebradas, símbolos de fogo e engrenagens.
— Isso ser magia... — explicou Lucca, acendendo uma chama em sua palma. — Mas não isso ser! — acendendo uma chama com a outra mão com um dispositivo metálico — É combustão controlada! Energia térmica convertida...
As chamas dançaram, refletindo-se nas pupilas dilatadas. Uma criança gritou, misto de medo e êxtase, enquanto a xamã recuava, murmurando palavras de proteção contra espíritos tecnomantes.
— Ciência aqui... magia aqui...— Lucca suspirou, apagando o fogo. — Bem, pra eles é a mesma coisa eu acho.
Foi então que Ayla ergueu-se de um salto, seu corpo ágil projetando uma sombra alongada sobre a fogueira.
— Seguir Ayla! — ordenou, engolindo o último pedaço de carne e puxando Crono pela mão.
A trilha serpentia entre rochas cobertas de musgo luminoso, guiando-os para além dos limites da aldeia. Kino seguiu à distância, seus passos silenciosos esmagando folhas secas com força desnecessária. Ayla, sempre à frente, ajudava Marle a cruzar um riacho cujas águas agitadas refletiam o luar como lâminas.
— Aqui! — anunciou ela, afastando uma cortina de trepadeiras que ocultavam uma entrada na rocha.
Dentro da gruta, o ar era úmido e pesado, cheirando a ferro e terra molhada. Nas paredes, incrustadas como veias pulsantes, brilhavam dezenas de pedras carmesim — a Dreamstone. Seu fulgor rubro dançava ao ritmo da luz das tochas, projetando padrões hipnóticos no teto abobadado.
Marle aproximou-se, fascinada. — Parecem... vivas.
— Melchior vai adorar isso! — exclamou Lucca.
Ayla inclinou a cabeça, confusa.
— Melchior?
— Ah! É... um amigo nosso — respondeu Lucca, tentando não confundir Ayla.
A líder tribal deu de ombros, seu sorriso iluminando a caverna mais que as gemas.
— Crono forte, amigos fortes, Melchior forte...
Kino, que até então permanecera na entrada, avançou subitamente:
— Por que estranhos querer pedra de Ayla?
O silêncio pairou, pesado. Ayla franziu a testa, mas foi Lucca quem respondeu, segurando a chave temporal contra a luz:
— Para salvar o futuro. Ou... o passado. Depende do ponto de vista.
Kino cravou os olhos no objeto, e então olhou para Crono.
— Por quê vocês ter tanta coisa estranha? Falar estranho, lança estranha...?
Antes que Crono respondesse, Ayla interpôs-se entre eles, seu riso preenchendo o vão tenso.
— Kino chato! Perguntar demais! Festa não acabar!
Puxando Crono de volta à trilha, ela ignorou o olhar fulminante de seu segundo. Kino permaneceu na gruta por um instante, seus dedos traçando os veios carmesim nas paredes, refletindo.
Corpos giravam em transe, e o hidromel escorria como sangue dourado. No centro do caos ordenado, Ayla arrastava Lucca para um recinto isolado, onde potes de barro envelhecidos pela fumaça guardavam líquidos coloridos.
— Isso acender sangue! — anunciou ela, erguendo uma concha cheia de um líquido vermelho borbulhante, algo que certamente alguém não tomaria por si próprio.
Lucca ajustou os óculos, cujas lentes refletiam labaredas douradas.
Olhos azuis desafiavam-na.
— Desafio aceito, minha bárbara favorita — respondeu, engolindo o gole antes que a prudência a alcançasse. O líquido desceu com uma solapada só, deixando um rastro de fogo.
— Puxa... isso é o que?.... petróleo?! — exclamou, tossindo, enquanto as bochechas lhe coravam de púrpura a rubro.
Ayla gargalhou, Lucca, porém, não recuou. Virou a concha de uma vez, como quem desafia a própria lucidez, e bateu no peito com o punho cerrado.
— Mais! — exigiu — Vamos ver se consigo calcular a graduação alcoólica dessa coisa!
Enquanto Lucca mergulhava em cálculos duvidosos com o aldeão que a servia, Ayla afastou-se, seus passos leves como os de um felino. Seus olhos encontraram Crono sentado num tronco carcomido. Uma garotinha tribal, de tranças desalinhadas, oferecia-lhe um pedaço de carne fumegante. Ele aceitava sorrindo, enquanto acompanhava o ritmo da música com a cabeça e a criança tagarelava palavras que Crono tentava decifrar com seu olhar infantil, mas não entendia nada.
Foi então que Ayla surgiu diante dele, emergindo das brumas da fogueira como uma visão. As chamas douravam seus cabelos loiros, transformando-os em uma crina de leoa, e seu corpo — esculpido em linhas definidas pela vida selvagem — projetava uma silhueta feminina exuberante. Crono engoliu em seco. Ela inclinou-se, invadindo o espaço formal entre eles.
— Crono comer igual criança... —disse ela, vendo-o lambusado do suco da carne.
Antes que pudesse responder, um menino puxou sua manga, apontando para onde um grupo de crianças brincava com sua katana, embainhada, mas perigosamente manuseada.
— Homem forte! Ver! — gritou o garoto, Crono levantou-se como um raio, sua aflição de alguém se machucar falando mais alto que o turbilhão de sentimentos.
Enquanto isso, Marle era cercada por mulheres tribais. Suas roupas "simples" — um contraste com os trajes de penas e couro — fascinava as jovens, que tocavam suas joias com dedos curiosos. Uma delas, com um colar de dentes de javali, imitava o sotaque de Marle, tentando pronunciar "princesa". A princesa riu, e logo ofereceu seu colar à garota.
— Fica lindo em você — disse Marle, ajudando-a a ajustar o adereço.
Quando Crono recuperou sua katana — após demonstrar aos meninos, com paciência, a arma cortante que era — e logo depois dispersarem-se —, seus olhos encontraram Ayla e Marle, lado a lado. A líder tribal contava uma história, gesticulando como se lutasse contra fantasmas invisíveis, enquanto Marle mordia uma fruta roxa, suco escorrendo por seus dedos como sangue do coração de um dragão. Havia harmonia entre elas: a fúria de Ayla e a graça de Marle entrelaçando-se como uma só conexão, elas compartilhavam um laço especial.
No centro da clareira, onde o cheiro de carne assada se misturava ao aroma ácido da bebida fermentada em cascas de coco, Lucca debatia-se contra a própria razão: explicar Darwin a anciãos que acreditavam que humanos descendiam de jabutis. Seus gestos exagerados, amplificados pelo álcool tribal, desenhavam no ar trajetórias de macacos evolutivos que ninguém via.
— Evolução! — ela gesticulou, quase derrubando a cabaça de barro com líquido amarelado. — É quando... quando as espécies mudam para sobreviver!
Um velho de cicatrizes serpentinas no peito inclinou-se, sério:
— Como espíritos da floresta escolher novas peles?
Lucca engoliu um suspiro. Do outro lado das chamas, Crono tornara-se o eixo de um universo menor. Cercado por guerreiros cujos corpos brilhavam com óleo de castanha, ele sustentava a katana, resgatada das crianças, agora cintilando sob o fogo, projetando sombras dançantes nos rostos maravilhados.
— Lança curta, brilhante... — murmurou um homem jovem, dedos trêmulos acariciando o fio. Sua voz carregava curiosidade e admiração.
— Não de pedra, não de osso...
— Metal — respondeu Crono, virando a espada para que a chama lambesse seu dorso. A palavra ecoou como um feitiço novo. Me-tal.
Quando o primeiro guerreiro ousou empunhá-la, os risos cessaram. A katana girou perigosamente, quase decepando uma orelha adornada com dente de onça. Crono trancou. Eram primitivos, esquecera. Então, desenhou no ar um movimento lento, ancestral e futurista ao mesmo tempo. Seus pés deslizaram na terra batida formando padrões rítmicos, enquanto corrigia posturas com toques leves nos ombros tensos. Os guerreiros imitavam-no, transformando golpes brutais em coreografia.
Na borda luminosa do círculo, Marle descobria que sua própria pele era um artefato. Sentada em um tronco rugoso, sentia dezenas de olhos escuros percorrendo seus cabelos dourados e sua pele clara.
— Você... — uma adolescente de tranças embebidas em urucum apontou para ela, depois para Ayla — ...ser mole.
Ayla explodiu em risadas, flexionando bíceps que pareciam esculpidos em ébano:
— Marle macia! Boa para comer!
A princesa corou, mas levantou o braço numa pose teatral.
— Eu também sou forte! — dizia enquanto fazia a mesma pose de Ayla, sem o mesmo resultado esperado.
— Sim! Todos fortes! — concordava Ayla com gosto.
O estrangeiro agora duelava com o grandes guerreiros de Ioka, usando apenas um galho nodoso. Seu corpo era um paradoxo vivo: a força contida de um Nu, a graça de um felino bebendo à beira do rio. Cada esquiva, cada contra-ataque mínimo, revelavam músculos e linhas bem definidas por anos de treino.
Ayla não ria mais. Seus olhos, afiados como os de um falcão, fixavam-se em Crono. Não era a força que a perturbava, mas a quietude. A força silenciosa. Enquanto os guerreiros de Ioka rugiam como onças, Crono lutava em silêncio, seus olhos refletindo as chamas como se carregassem fogo interno.
Marle tocou seu ombro, queimando-a com a frieza da pulseira de prata:
— Ayla?
— Kino sumiu — mentiu ela, erguendo-se com ímpeto de flecha lançada.
Kino não sumira. Observava da sombra de uma gameleira centenária, onde o luar não alcançava.
Na outra extremidade da aldeia, Lucca desistira de Darwin. Agora, com as mangas arregaçadas mostrando cicatrizes de queimaduras antigas, tentava explicar motores a vapor usando gravetos.
— Imagine que... *hic*... esta concha é um motor! — dizia quase sussurrando pra si mesma — E então... BUUUUM! — gritou, simulando uma explosão. — É assim que as coisas funcionam no nosso tempo!
— Ah! — O homem assentiu, sério. — Como os espíritos do vento!
— Exatamente! — Lucca desistiu de corrigi-lo, jogando o graveto pra cima.
Os aldeões urraram de divertimento, enchendo novamente sua concha de bebida.
Crono, por sua vez, estava envolto em uma aura de mito. Os guerreiros de Ioka agora lhe mostravam suas lanças de pedra lascada, cada uma com desenhos feitos à mão por seu portador.
— Reptites ser fortes — disse um guerreiro, batendo no próprio peito. — Mas temer trovão!
Crono, embriagado pela bebida e pela atmosfera, sorriu, ergueu a mão, e olhou pra cima, seguido pelos guerreiros. Então, puxou a mão para baixo, como quem atrai algo dos céus. Um relâmpago rasgou a escuridão, caindo em um campo vazio próximo à vila. O estrondo ecoou, e os guerreiros maravilhados, começaram a gritar:
— Crono! Crono! Filho do trovão!
Kino observava tudo. Seu coração martelava no peito. "Quem ser esse homem?" Sua mão apertou a lança que carregava. Uma mistura de medo e dúvida invadia seus pensamentos.
Marle e Lucca, cambaleando como bêbadas em um navio, chegaram até Crono.
— Você... *hic*... vai fazer chover? — Marle apontou para as nuvens, séria, antes de cair sob seu colo.
— Ele só ensinou o truque pra assustar lagartixas, princesa. — Disse Lucca, sobriamente técnica.
Foi então que Ayla surgiu, como uma onça saindo da mata. Seus passos eram silenciosos, seu olhar consumia Crono.
— Crono exibido... — rosnou, cutucando o peito dele com o osso ensanguentado.
E cravou os dentes na carne que trazia, sem desviar os olhos dele.
Ayla avançava como uma força primal, desafiando a própria vida. Seus passos eram precisos, quase predatórios, enquanto conduzia Crono, Marle e Lucca através da massa de corpos suarentos. Guerreiros ornamentados, respeitáveis anciãos, enfileirados em um semicírculo de pedras gastas, observavam em silêncio. Seus mantos de pele de lobo tremulavam como bandeiras da tribo.
Marle girava, pelo efeito da bebida fermentada que lhe queimava a garganta, pela própria atmosfera. A magia da noite era densa, quase palpável: uma teia de cantos guturais, passos sincopados e o tilintar de amuletos de osso. Lucca, por sua vez, tropeçava não só nos próprios pés, mas na lógica daquela realidade. Ela ria toda vez que tentava se lembrar que ano era aquele.
— Aqui — sussurrou Ayla.
Ela se ajoelhou diante de um altar de pedra baixo. Com cerimônia, desenrolou uma pele de animal — tão branca que parecia neve sob a lua cheia. Revelou uma pedra.
Não era qualquer pedra.
Carmesim como sangue recém-derramado, pulsava como se quisesse viver.
— Pedra de Ayla — anunciou, erguendo-a como um troféu. — Símbolo força. Símbolo poder.
Crono estendeu a mão, atraído por uma força quase magnética, mas Ayla interceptou seu pulso com uma precisão de caçadora. Seus dedos, calejados e quentes, fecharam-se como grilhões.
— Crono ser forte... — sussurrou, aproximando-se até que seu hálito quente, misturado a um travo de raízes amargas, lhe tocasse o rosto, seus olhos incendiados encontravam-se com o cintilante verde-esmeralda. — Mas na tribo de Ayla, força se provar.
Marle engoliu seco. A líder guerreira era uma escultura viva: músculos traçados sob a pele dourada, cicatrizes que contavam mais histórias que seus livros de contos de fadas. Lucca, pragmática até na beira do abismo, declarou ao vento:
— Se for porrada, Crono está ferrado. Olha o tamanho das pernas dela! Deve treinar esmagando rochas com elas.
Ayla riu, um som grave que ecoou como o rosnar de um felino. Ergueu a pedra acima da cabeça, fazendo a tribo inteira urrar em êxtase.
— Crono quer pedra? — Ayla desafiava, segurando a pedra. — Vencer Ayla no Quebra-Crânio!
Gritos de "Quebra-Crânio!" começaram a surgir como um mantra, enquanto tambores aceleravam, imitando batidas cardíacas em pânico.
Marle agarrou-se a Lucca, não pela tontura, mas pelo frenesi coletivo. Os aldeões batiam os pés, transformando a terra em um tambor gigante.
Dois aldeões trouxeram tigelas de madeira entalhada, tão largas quanto escudos. Dentro, um líquido âmbar tremulava, exalando um odor que entrelaçava o doce, o picante e algo indescritivelmente ancestral.
— Você consegue, Crono! — gritou Marle, mais por lealdade que por convicção.
Crono olhou para o líquido. Era espesso. Movia-se devagar, como alcatrão.
Ayla ergueu uma tigela até seus lábios. Por um instante, seu olhar perdeu a ferocidade, revelando algo quase... passional.
— Fogo da tribo — disse, como se oferecesse um segredo. — Espírito fraco queimar, espírito forte lutar. — Ayla sentia um misto de êxtase e ternura por Crono.
Já ele engoliu seco.
Erguia-se então, um palco de provações, duas bacias de madeira nodosa, transbordando de Quebra-Crânio, seu vapor escaldante subindo como serpentes enrodilhadas, até os cascudos guerreiros da tribo encolhiam as narinas.
Ayla, sentada sobre uma pele de Bao Bao, desafiava o ar com sua postura de predadora. Seus olhos azuis fixaram-se intensamente em Crono, cujos olhos verdes contrastavam a pálida feição.
— Só ter uma regra... — rugiu ela, erguendo uma tigela de barro até os lábios, enquanto os tambores tribais aceleravam, imitando o galope de uma montaria desesperada.
— Beber até alma fugir do corpo! Cair, perder! Vomitar, perder! Desistir, perder!
Crono, ainda tonto do hidromel ingerido nas horas anteriores, observou o líquido espesso que borbulhava na bacia. A bebida parecia viva, sibilando promessas de agonia. Lucca, atrás dele, ajustou os óculos com um sorriso de cientista louca:
— Teoria: heroísmo é 90% coragem, 10% capacidade hepática. Prove minha tese, Crono!
Marle, cambaleante, jogou-lhe uma coroa de flores murchas sobre a cabeça:
— Imagina que é o chá de cogumelos da vovó!
A competição começou com um grito da multidão. Ayla engoliu a primeira tigela em dois golpes, como se devorasse a própria morte. O líquido escorreu-lhe pelo queixo, deixando um rastro amarelo. Crono, por sua vez, engasgou-se ao primeiro contato — o gole arranhou-lhe a garganta como uma garra. Era doce. Depois azedo. Depois queimava. Não como o álcool, mas como fogo vivo, descendendo até seu estômago como uma serpente de brasas.
Lucca, percebendo a vacilada de Crono, agarrou sua nuca e, impiedosa, enchia outra tigela.
— Método científico, Crono. Repetição leva à perfeição. — E despejou a bebida nele, ignorando seu olhar de traição.
— Crono! Crono! — urraram vozes de guerreiros entrelaçadas à de Marle, enquanto Lucca despejava a segunda dose goela abaixo. O líquido queimava-lhe o esôfago, e por um instante, ele viu visões: um rei sapo, um herói chamado Tata, um mundo povoado por reptites, e até a própria morte, que absurdo isso, não?
Aos poucos, o mundo se reduziu ao tilintar das tigelas, ao suor escorrendo pelas têmporas, ao gosto fulminante que se infiltrava em cada poro. Ayla, inicialmente uma tempestade inabalável, começou a fraquejar. Seus dedos trêmulos deixavam marcas úmidas nas bacias, e seu riso — antes uma cascata de desafio — transformara-se em um sussurro rouco.
"Crono..."
Seus dedos agarravam a concha como uma presa, sua mão tremia. A tribo urrava. Ayla tentava focar nos olhos de Crono, agora vermelhos como brasas.
Na décima quinta rodada, o equilíbrio se quebrou. Ayla derrubou a tigela, e o Quebra-Crânio respingou em sua perna. Os aldeões, em coro, entoavam:
— Ayla cair! Ayla cair!
— Chega Crono! Ayla desistir!
Crono, com os pulmões em chamas e a visão turva, terminou sua última dose e ergueu os braços. A multidão explodiu em um alarido primal, e Marle, em lágrimas bêbadas, lançou-se sobre ele como um pássaro ferido:
— Você venceu Crono!
Lucca abraçou-o com força suficiente para partir costelas:
— Parabéns, idiota. Agora você é oficialmente o maior pinguço da pré-história!
Ayla, ainda sentada, tomou a pedra, e levantando-se, estendeu-a até Crono. Seus dedos cerraram os dele.
— Crono bobo... — sussurrou, sorrindo pra ele. — pedra já ser sua... antes...
E assim, sob um céu coalhado de estrelas, Crono segurou a pedra e a ergueu, Crono suportou o fogo da tribo.
No epicentro do caos, com a Dreamstone cintilando em suas mãos, Crono comemorava. Seus dedos tremuliçavam não pelo peso da pedra, mas pela embriaguez que lhe corroía os sentidos. Marle rodopiava em círculos concêntricos ao seu redor, seus cabelos dourados emaranhados como algas sobressaltadas pela tempestade de celebração.
— Viva! Crono é o rei da tribo! — gritava ela, enquanto Lucca, despojada de suas lentes, tentava traduzir o êxtase:
— É uma questão de... de... metabolismo acelerado! Ciência, gente! — explicava a inventora a um grupo de aldeões em frenesi.
Ayla observava à margem. Seu olhar seguia os fios carmesim de Crono – uma chama viva que continuava a dançar mesmo quando seu corpo se imobilizava. Avançou, e o chão oscilou sob seus pés descalços como se tivesse vida própria.
"Chão mover forte" riu para si mesma, agarrando uma tigela de Quebra-Crânio antes de erguê-la em arco triunfal
— Festa devora noite! Mais Quebra-Crânio pra Crono!
A horda tribal ecoou seu grito enquanto Marle e Lucca mergulhavam nas conchas cerimoniais. Crono se deteve, agora com a palidez de um espectro, entregou a Dreamstone a Lucca como quem passa uma bomba prestes a explodir. Com as mãos sobre a boca, seus passos fugitivos desenharam uma trilha tortuosa até as entranhas da mata. Ayla seguiu o rastro de soluços abafados. Encontrou-o curvado sobre um carvalho ancestral, vomitando constelações de estrelas amargas.
— Crono vencer por pouco! — troçou ela, antes que seu próprio estômago se rebelasse. Um dueto grotesco.
Quando o último espasmo os abandonou, Crono fitou a guerreira através de cílios úmidos. Seu sorriso era gentilmente arrogante. Ayla tentou erguer-se, mas as pernas traíram-na num movimento que não sentiam a gravidade. Crono agarrou-lhe o braço num reflexo, puxando-a para si num redemoinho descoordenado.
Caíram num baque seco. O corpo de Ayla moldou-se ao dele – curva contra plano, calor tribal contra frio da noite. Seu rosto afundou no peito de Crono onde latejava um tambor de guerra solitário.
— Crono... cheirar fumaça... — murmurou ela, nariz pressionado contra sua pele salgada.
Nas profundezas de sua consciência enevoada, Crono sentia.
O peso morno de Ayla pressionando-lhe os pulmões. Seus fios dourados entrelaçando-se com seus dedos. O hálito quente subindo pela garganta, aquecendo-lhe a face. A noite teceu-lhes um sudário de silêncio. Ayla sentiu braços pesados envolvendo-a num círculo imperfeito.
— Crono… — sussurrou.
Seu suspiro perdeu-se no ar frio da madrugada quando percebeu que Crono sucumbira ao sono – o corpo dele, agora pesado, inclinava-se sobre o seu, respirando lento e profundo.
Sua consciência desfiou-se como um cipó sob tensão, enquanto ela mergulhava no abraço adormecido de Crono.
A madrugada trespassou Ioka como uma adaga de geada, cortando o sopro quente da festa que outrora fez a terra vibrar. O vento uivava entre as tendas, arrastando cinzas de fogueiras mortas e o eco de cantos embriagados que se dissipavam na névoa.
Ayla despertou em estágios, como quem emerge de um afogamento. Primeiro, a frialdade: a brisa noturna lambendo suas pernas nuas, insinuando-se sob a pele como água de riacho glacial, segundo, quentura: o torso de Crono, onde sua cabeça repousara, ainda guardava o calor de uma pedra ao sol. Seus olhos, ainda embaçados pelo véu da ressaca, percorreram o rosto dele — uma paisagem de contornos suaves onde a violência do dia anterior não deixara marcas. Os cabelos vermelhos, agora apagados pela penumbra, espalhavam-se em seu rosto.
Ela não sabia dizer se estava acordada ou presa em algum sonho febril. A mão de Crono, que horas antes a segurara com firmeza, repousava inerte em seu ombro, um peso morno e esquecido. Ayla moveu-se, buscou o calor de seu corpo, e a dor explodiu em sua nuca, afiada e lancinante.
"Crânio rachado" pensou, mastigando a raiva como se fosse raiz amarga.
Apoiou-se na árvore que sustentava Crono, tronco rugoso contra suas costas. A luz prateada desenhava-lhe o rosto: maçãs altivas, cicatrizes finas, a curva dos lábios como um convite não expresso. Um impulso absurdo atravessou-a — um desejo de morder, de possuir, de desvendar. Hesitaram. As mãos que desafiavam garras, que arrancavam presas de reptites da própria carne, que eram os pilares de uma aldeia, vacilavam diante de um homem inconsciente.
— Crono... — O nome escapou-lhe como uma prece.
Seus dedos tocaram os fios vermelhos, mais suaves do que à lã de um Kiwala. Nunca assim a tratara — nem a si mesma. O vento uivou de novo. Sem o escudo dourado dos cabelos de Ayla sob seu peito, Crono estremeceu, um arrepio que percorreu seu corpo como uma sombra. Ayla observou-o, os músculos tensos, a pele clara pintalgada de arrepios, e algo em seu peito contraiu-se — um instinto de sobrevivência, mais forte que a tontura.
"Crono ter frio."
Ergueu-se, cambaleante, apoiando-se na árvore atrás dele. Seu corpo gritava por descanso.
Com um grunhido de esforço, ela o agarrou pelo braço. Seus pés fixaram-se no chão. Ayla o ergueu como se carregasse um cervo abatido, ajustando o corpo dele sobre seu ombro com a naturalidade de quem sempre carregou o peso da vida. Crono resmungou uma sílaba sem forma, e ela riu baixo.
— Crono leve como pena... Ironia de guerreiro.
A aldeia respirava em sussurros. Nas fogueiras morimbundas, faíscas dançavam como espíritos inquietos. Os guardas viraram os rostos curiosos ao vê-la cruzar a névoa, a líder de passos trôpegos carregando o forasteiro. Sustentaram o silêncio.
Pálida e curvada como uma foice, a lua deslizou atrás das serras, levando consigo os últimos vestígios de luz prateada. Ayla permaneceu imóvel ao lado de Crono, agora repousado entre peles felpudas.
Antes de partir, observou-as. Lucca dormia enrolada sobre si mesma, os óculos pendidos sobre uma orelha, deslizados para a ponta do nariz — uma erudita transformada em criança pelo sono. Marle, de bruços, estendia o braço sobre o vazio, em busca de algo que só existia em seus sonhos. Um sorriso tomou seus lábios.
Seu olhar retornou a Crono.
Ele jazia como uma estátua esculpida em âmbar, cabelos de fogo espalhados em auréola, peito nu marcado pelas mechas de Ayla. Sem perceber, ajoelhou-se. Seus dedos, tocando os fios vermelhos com a reverência reservada a um recém-nascido.
— Quente... — sussurrou, inclinando-se até que seus lábios roçassem os cabelos rubros.
O beijo foi breve como o bater de asas de um beija-flor, mas aqueceu seu coração.
[...]
Um manto de suspiros e roncos. Alguns dormiam abraçados a armas, outros sob peles. Ayla caminhou entre corpos tombados, sentindo a terra em sintonia com suas têmporas. Cada estrela acima parecia um olho aberto, testemunhando seu sentimento aflorado.
Na tenda, engoliu água da tigela de barro em goles rápidos. O líquido escorreu frio pelo pescoço, mas não apagou o ardor interno. No reflexo turvo da superfície, viu-se duplicada. Enrolou-se no leito de peles, sentia o cheiro dele. A lembrança de seus dedos entrelaçando-se aos dela a fez arquear-se sob o manto, como se o corpo tentasse conter um universo em expansão.
Fora, os primeiros pássaros anunciaram a alvorada. Ela imaginou Crono partindo com a névoa matinal, deixando para trás apenas a marca ofuscada de seu raio que cortou os céus desaparecendo lentamente da visão. Seu punho cerrou-se nas peles. Queria que a tempestade ficasse.
O sol trespassou a névoa matinal como uma lâmina de luz, cortando a fronte entre sonho e realidade. Crono despertou com a boca seca de cinzas, o corpo pesado como se a terra o quisesse engolir. A luz branca feriu seus olhos.
— Hugh... — a mão trêmula ergueu-se para proteger o rosto, como se pudesse afastar a ressaca que lhe martelava as têmporas.
Ao redor, Ioka renascia. Guerreiros poliam lanças, pedras lascando madeira. Crianças corriam entre as tendas, gravetos ao alto, imitando golpes de espada que riscavam o ar em silhuetas fugazes. Lucca e Marle jaziam enroladas em peles de urso, entrelaçadas como serpentes em repouso. A princesa respirava suave, seus cabelos dourados esparramados como um manto sobre a terra, enquanto Lucca, de óculos desalinhados e rosto marcado pela noite, resmungava em sonhos.
— Lucca... acorda — Crono sacudiu-a com a delicadeza de quem manuseia um artefato explosivo.
Ela revirou os olhos sob as pálpebras cerradas, os dedos agarrando-se às peles como se fossem seu último invento.
— Quê? — a voz saiu pastosa, misturando-se a um bocejo. — Ah... minha cabeça... — esfregou os óculos contra a túnica, tentando apagar manchas imaginárias. — Não entendo... fui uma perfeita dama ontem... — mentiu, os cantos dos lábios curvando-se em um sorriso malicioso. — E você, onde se meteu o resto da noite?
Crono abriu a boca, mas as palavras desintegraram-se antes de nascerem. Fragmentos da madrugada invadiram sua mente — o perfume selvagem de Ayla, a respiração em seu peito, o toque fugaz em seus cabelos —, tudo embaralhado, como tinta em água turva.
Marle despertou em um suspiro, alongando-se como um felino ao sol.
— Bom diaaa! — cantou, esfregando os olhos cor-de-céu. — Que festão, né, gente?
Foi então que Lucca estremeceu.
— A CHAVE! — seu grito rasgou a manhã, ecoando como um trovão seco. Ergueu-se de um salto, as pernas bambas ameaçando traí-la. — A chave sumiu!
O silêncio caiu como um véu. Crono e Marle congelaram, os olhos fixos nela, enquanto aldeões se aproximavam, atraídos pelo desespero em sua voz. Lucca vasculhou bolsos com mãos trêmulas, revirou folhas, esquadrinhou o chão — cada movimento um espasmo de pânico. Um guerreiro de ombros largos apontou para pegadas profundas na terra úmida, marcas de garras retorcidas que rodeavam o local onde dormiram, e se perdiam na direção da floresta.
— Meu Deus! — Lucca agarrou o próprio pescoço, os olhos arregalados. — Eu dormi com um dinossauro no meu cangote?!
— Lucca, a chave! — Marle a puxou de volta à realidade, as mãos firmes em seus ombros.
— Ah é! A chave! Cadê? Cadê a Ayla?!
Na cabana de Ayla, o silêncio foi dilacerado por batidas brutais. A líder tribal despertou com um sobressalto, os músculos tensionados antes mesmo de seus olhos azuis se focarem. Lucca, à entrada, parecia um furacão humano:
— AY...! A NOS... VE FOI RO...!
Ayla franziu a testa, tentando decifrar a língua de Lucca.
— AYLA? VO... VE SUMIU, PEGAD... REPTITES!
— Reptites?! — Ayla ergueu-se num movimento fluido, a tontura da noite dissipando-se sob a adrenalina. — Onde?!
Seu olhar cruzou com o de Crono. Por um instante, o ar entre eles densificou-se — memórias de calor compartilhado, de dedos entrelaçados. Mas Ayla desviou, os punhos cerrando-se como se esmagassem a fragilidade do momento.
— Kino também sumir! — um aldeão anunciou, a voz carregada de urgência. — Ver pegadas e ir atrás sozinho, desespero!
Ayla esticou o pescoço, os tendões salientes como cordas de arco.
— Kino!? Pra onde?
— Floresta reptite!
O nome pairou como uma maldição. Ayla avançou para fora da tenda, o sol da manhã incendiando seus cabelos loiros. Seus passos ecoaram contra a terra, cada um um tambor de guerra.
[...]
Raízes retorcidas emergiam do solo como veias petrificadas, entrelaçando-se em nós que sugavam a luz do sol e regurgitavam penumbra. O ar, denso e úmido, carregava o ranço de folhas apodrecidas e o melado dulçor de flores carnudas que se abriam apenas para devorar insetos incautos. Cada passo ecoava como uma denúncia.
Lucca caminhava em passos curtos, os dedos crispados ao redor do vazio onde a chave temporal deveria estar. Seu olhar, por trás das lentes embaçadas, percorria o chão coberto de musgo luminescente.
— Sem a chave, estamos presos aqui... presos no passado... — sussurrou, mais para si mesma, enquanto a sombra de um pterodáctilo cruzava o céu.
Marle tocou seu ombro, a mão leve como um pássaro.
— Vamos encontrar. Ayla vai ajudar a gente. — Seus olhos azuis brilhavam com uma determinação que não chegava à voz.
"Só não perde a cabeça porque tá grudada, né?"
Ayla avançava à frente, a mata se abria para que ela passasse.
— Kino forte, mas aqui ter muito reptite... — refletia em voz alta.
A floresta apertou-se ao redor deles, as árvores inclinando-se como espectros curiosos. Crono, ainda atordoado da noite calma e serena, de repente, tropeçou, uma língua de madeira retorcida, camuflada sob um tapete de folhas podres, enganou seus passos. O mundo girou, os braços buscaram apoio em vão, e ele despencou por um declive íngreme. Terra, pedras e espinhos rasgaram-lhe a roupa, enquanto rolava em uma coreografia caótica. Ao final, estatelou-se de costas, a respiração cortada, o céu acima uma mancha azul-clara entre folhas esverdeadas.
— CRONO! — Os gritos de Marle e Lucca ecoaram, diluídos na poeira levantada.
Ayla virou-se num movimento fluido, os olhos azuis faiscando. Viu Crono estatelado. Seus lábios entreabriram-se, um rugido prestes a eclodir, quando um estalido seco a fez se virar.
Entre as sombras, uma figura emergiu — Kino, desgrenhado, o peito marcado por arranhões profundos, os olhos selvagens refletindo o medo de uma criança perdida.
— Ayla!... — quase engolindo seu nome.
— Kino! Que houve? — a líder tribal avançou, cada passo uma sentença. Seu olhar percorreu o corpo dele, decifrando sangue e terra.
Kino engoliou em seco.
— Ayla... Kino... ah.. — as palavras fugiam, engasgadas na garganta.
Ayla conhecia cada curva daquele rosto, cada sombra que habitava seus olhos. Kino jamais fora um mentiroso — sua honestidade era tão bruta quanto seus golpes.
— Falar, Kino! — exigiu, a voz estralou como um chicote nos ouvidos de Kino.
O guerreiro encolheu-se, reduzido à essência de um menino sob o julgamento da mãe.
— Kino... roubar coisa de Crono.
O silêncio que se seguiu foi tão denso que até o vento parou. Ayla congelou, os punhos cerraram-se.
— Kino... o quê? — avançou, buscando seus olhos.
— Kino ter medo que... — a voz quebrou.
O tapa ecoou seco entre as copas. Kino cambaleou, a mão pressionando a face avermelhada onde os dedos de Ayla haviam deixado sua marca. Marle levou as mãos à boca; Lucca desviou o olhar, que momento desagradável.
— KINO IDIOTA! — o grito de Ayla fez as folhas estremecerem. — Por quê Kino fazer isso?!
O olhar de Kino marejou, prestes a lavar trilhas de poeira e vergonha.
— Ayla não gostar Kino... — sussurrou, a voz um fio de dor.
Ela o agarrou pela gola, trazendo-o tão perto que seus narizes quase se tocaram.
— ERRADO! — as palavras saindo entre ferocidade e desapontamento. — Ayla gostar muito Kino! Muito! Mas Kino trair amigos!... Trair Ayla.
Crono ergueu-se, apoiado em Marle. Seu olhar encontrou o de Kino — não havia acusação ali, apenas uma quietude que doía mais que qualquer golpe.
— Crono, desculpar Kino... — o guerreiro murmurou, a cabeça baixa. — Kino errado.
— Tudo bem... — respondeu Crono, a voz rouca mas firme.
Lucca interrompeu, pragmática como sempre:
— Ok, ok, desculpado. Cadê a chave, Kino?
Ele engoliu, os olhos fixos no chão.
— Reptites... pegar. Atacar Kino e roubar chave...
Os olhos de Ayla queimaram.
— Reptites?! Pra onde?!
— Covil de reptites... Ayla saber.
Ela girou sobre os calcanhares, decidida.
— Kino voltar, cuidar tribo! — ordenou, o tom carregado de uma autoridade que não admitia questionamentos.
Kino preparava para se contrapor.
— Kino forte! Ayla morrer, Kino novo chefe, saber disso! — anunciou, calando Kino.
Seu olhar suavizou-se por um instante — um lampejo de memórias invadiam-na.
Kino assentiu, e, de cabeça baixa, aproximou-se de Crono. Seus olhos, dois poços de culpa escavados no rosto anguloso, fitaram o chão antes que as palavras escapassem, roucas e carregadas de vergonha:
— Kino... sentir muito... — A voz revelando a ferida aberta em sua alma.
Crono sorriu e estendeu a mão, não como um rei a um súdito, mas como um irmão a outro. O erro de Kino estava no passado.
— Crono forte... cuidar Ayla... — Kino agarrou a mão oferecida, num aperto que transcendia palavras. Era um pacto forjado em um gesto. Crono dava sua confirmação.
À frente, Ayla dançava sobre os pés, impaciente como uma chama sob o vento. seus olhos cravavam-se na floresta que se erguia à frente, um monstro verde e sussurrante.
— Acabar assunto! — rosnou, a voz um trovão abafado pela vegetação. — Caçar reptites!
Antes que o eco de suas palavras se dissipasse, ela mergulhou na mata, seu corpo ágil entrelaçando-se entre os troncos como uma onça faminta. Crono, Marle e Lucca trocaram olhos de resignação divertida antes de segui-la, deixando Kino para voltar a aldeia.
Os guerreiros saudaram Kino com cabeças inclinadas e lanças erguidas. Antes de atravessar o portal de madeira entalhada, ele parou. Seu olhar lançou-se à floresta distante, onde as sombras dos companheiros haviam sido engolidas.
— Kino melhorar... — sussurrou para o vento, os punhos cerrados como pedras, prometendo para si mesmo.
A floresta era um labirinto vivo, pulsante e hostil. Galhos retorcidos agarravam como dedos ossudos, e o ar espesso de esporos dourados enchiam os pulmões. Ayla liderava como extensão da selva.
Numa clareira, enquanto a luz filtrada pintava manchas douradas no chão de musgo, Ayla aproximou-se de Crono. Seus dedos, leves como asas de libélula, tocaram os hematomas em seus braços, lembrando que ele despencou da ribanceira.
— Crono bem? Cair feio. — Seu sorriso era uma fenda selvagem, mas nos cantos dos olhos, uma centelha de ternura tremulava.
Crono ergueu as sobrancelhas, sorrindo com descaso de seus arranhões, aquilo não era nada de mais.
— Crono cair igual Kiwala rodando! — A gargalhada de Ayla explodiu enquanto ela imitava Crono cair girando. Até Marle e Lucca não puderam conter suas risadas.
O ar, denso e quente, grudava na pele, carregado do cheiro de musgo e decomposição. Acima, as copas entrelaçadas das árvores formavam uma catedral verde, mas a luz que antes filtrava por entre as folhas agora se extinguia, engolida por nuvens cinzentas que se aglomeravam no céu. Ayla seguia à frente, indiferente à mudança. Seus olhos fixos no caminho. Bom, até ele se dividir.
Na clareira o dilema surgiu: uma bifurcação na mata. Ela parou, imóvel, a mão na cintura, os dedos tamborilando o quadril enquanto estudava os dois caminhos. Às suas costas, Crono observava as sombras que dançavam entre as árvores, sentia o peso do ambiente como uma mão fria na nuca — as sombras entre os arbustos, o farfalhar de escamas na folhagem.
— Floresta dar dor de cabeça... — murmurou Ayla.
Marle aproximou-se, os passos leves.
— Tudo bem?
Ayla grunhiu, os olhos ainda cravados nas trilhas. Lucca, entretanto, erguia o rosto para o céu, onde as primeiras gotas já começavam a cair, grossas e frias.
— Ótimo — disse, sarcástica, estendendo os braços. — Não trouxe meu guarda-chuva.
Ayla finalmente notou a chuva, mas não pareceu perturbada. Para ela, aquilo era trivial — água era parte do mundo, como o vento, fogo.
As garotas, porém, não compartilhavam de sua indiferença. Marle abraçou o próprio corpo, e Lucca protegia os óculos com as mãos, resmungando sobre a umidade e ferrugem.
Foi então que Ayla virou-se para Crono, um sorriso predatório curvando seus lábios.
— Crono filho trovão? Fazer chuva parar!
O rapaz piscou, surpreso. Que absurdidade era essa?
Antes que pudesse responder, Lucca completava:
— Vai deixar essas belas donzelas se molharem?
Marle cruzou os braços:
— Parece que nosso herói não é tão poderoso assim.
Crono sorriu, sem jeito, coçando a nuca. A resposta, porém, foi interrompida pelo dilúvio. A chuva desabou de uma vez, transformando o ar em uma cortina d’água.
— Plano B?! — berrou Lucca, tentando inutilmente cobrir a cabeça.
— Abrigo! — Marle gritou.
Como uma pantera, Ayla vasculhou a área até encontrar uma fenda na base de um morro — uma caverna estreita, escondida por samambaias. Liderou o grupo em meio à lama que escorregava sob seus pés. Crono, o primeiro a alcançar a entrada, escorregou no solo encharcado, caindo de modo desengonçado. As garotas riram, encharcadas, tropeçando uma nas outras até se abrigarem.
— Chuva parar logo... — disse Ayla, a voz firme. Olhou para os companheiros, encharcados e desalinhados, seu olhar suavizou. — Descansar agora.
Crono observou-a, molhada, com lama nos pés e folhas no cabelo, Ayla irradiava uma energia inquebrantável. Era como se a tempestade não passasse de um capricho do mundo, e ela, parte integrante daquela selvageria. Para ela, aquilo era a vida, como ela é.
A caverna era pouco mais que uma fissura na pedra, mas bastava. O rugido da tempestade lá fora era abafado, reduzido a um murmúrio distante. Ayla mantinha as pernas cruzadas e a postura ereta — como um cão que guarda sua propriedade.
Crono sentou-se perto da entrada, observando a cortina d’água que engolia a clareira. Marle e Lucca, encolhidas contra a parede, tentavam secar os pertences, suas risadas nervosas misturando-se ao som da tempestade.
Então, recolhendo gravetos espalhados e organizando-os em uma pilha meticulosa, Lucca começou a fazer uma pequena fogueira. Quando terminou, ergueu a mão num gesto teatral, os óculos refletindo o brilho da magia que começava a emanar de seus dedos.
— Que se faça o fogo! — exclamou, e uma esfera de chamas saltou de sua palma, incendiando a lenha num estalo seco. O sorriso que se abriu em seu rosto era de pura satisfação.
Ayla observou as chamas dançarem, hipnotizada. Magia era um mistério para ela — um poder fascinante.
"Amigos fortes"
Sorriu, assentindo para Lucca em aprovação.
Marle, ainda tentando organizar seus cabelos molhados, prendeu-os em um rabo de cavalo prático. Seus olhos recaíram sobre Crono, notando os arranhões e hematomas visíveis em seus braços e pernas. Ela chamou-o suavemente:
— Crono, vem aqui...
Sentando-se entre ela e Lucca, Crono mostrava os arranhados e hematomas. Marle estendeu as mãos, concentrando-se. Um brilho tênue surgiu sob seus dedos, e arranhões começaram a fechar. Crono observava, sua expressão habitualmente serena tingida de curiosidade.
Lucca, ao lado, cutucou-o com o cotovelo:
— Você devia olhar por onde anda, herói — disse, alimentando o fogo com mais gravetos.
Ayla assistia, fascinada. A magia de Marle era diferente da de Lucca.
"Força bonita..."
Em Ioka, a força era medida pela capacidade de caçar, lutar, sobreviver. Naquele grupo, cada um trazia uma força única: Lucca, sua mente brilhante e fogo mágico; Marle, sua graça que curava; Crono, sua gentileza tempestuosa.
Ayla, reconhecida pela sua força, via agora uma potência que não estava apenas nos músculos ou na coragem. Imóvel, deixou-se absorver pelo crepitar do fogo. As chamas projetavam sombras dançantes no rosto de Crono, seus olhares se encontraram, viu duas esmeraldas cintilantes no meio do fogo.
[...]
Guti caminhava pelo acampamento, a postura curvada pelo peso dos anos. Ao passar pela tenda principal, ouviu um som familiar: o arrasto ritmado de madeira contra madeira. Curioso, aproximou-se silenciosamente.
Ayla, num canto, de cócoras , os cabelos loiros emaranhados caindo como uma cortina sobre o rosto e costas. Esfregava um graveto entre as mãos com uma determinação que beirava a teimosia, enquanto uma pilha de palha seca esperava em vão por uma centelha. A poucos metros dali, uma fogueira.
O ancião ergueu o cajado e, sem cerimônia, deu uma leve cajadada na cabeça dela. Ayla virou-se, os olhos faiscando de irritação.
— Que velho quer? — voltando a esfregar o graveto com força redobrada.
— Ayla fazer o quê? — perguntou ele, apontando para a fogueira já acesa com o cajado.
— Nada! — respondeu ela, entre dentes, enquanto o graveto escapava de suas mãos e caía no chão.
— Por que Ayla fazer fogo? Ter fogo ali. — insistiu o ancião.
— Kino saber fazer, Ayla saber fazer! — rebateu ela, pegando outro graveto e recomeçando, os dedos já vermelhos de tanto esfregar.
— Humm... — coçou a barba, observando-a. Lembrou-se do dia que ela derrubara a comida no fogo, queimando a carne e extinguindo a chama.
Ayla esfregava os gravetos.
— Kino aprender caçar hoje... — comentou, tentando puxar conversa. — Voltar com sapo, ou kiwala?
— Kino bebê chorão — resmungou Ayla.
O ancião suspirou. Notou as mãos dela, já feridas pelo atrito.
— Velho chato, Kino chorão — repetiu ela, como um mantra, sem desistir.
Outra cajadada leve acertou sua cabeça.
— Ayla cabeça de Nu. Não aprender nem em cem luas.
Ela continuou. O ancião, deixou-a ali, murmurando algo sobre teimosia e tempo perdido.
A noite caíra sobre o acampamento quando Kino a encontrou. Ayla estava exatamente onde o ancião a encontrara horas antes, ainda curvada sobre a pilha de palha seca, os dedos vermelhos de tanto esfregar gravetos.
— Ayla? — chamou Kino, hesitante, aproximando-se com um pedaço de carne assada na mão. — Kino trazer comida. Ayla não ir comer...
Ela parou, os ombros tensos como cordas esticadas. Por um momento, pareceu que ignoraria o garoto, mas então soltou um suspiro pesado e deixou-se cair para trás, apoiando-se nas pernas dele. Ali, olhou para cima, os olhos azuis cansados encontrando os inocentes olhos azuis de Kino. As palmas de suas mãos, abertas e feridas, latejavam de tanto esforço.
Kino, pequeno e desengonçado, inclinou-se para frente, espiando a madeira carbonizada.
— Ayla forte — disse, tentando soar convincente. — Conseguir logo!
Mas Ayla não respondeu, continuava olhando o rosto de Kino. Seu corpo inteiro doía por causa da posição que ficara o dia todo, lembrando noites em que o frio cortante a mantinha acordada, noites em que "fogo" era apenas uma palavra vazia. Kino, percebendo seu desânimo, estendeu a carne mais perto de seu rosto.
— Agora comer! — ordenou, e antes que ela protestasse, enfiou um pedaço na boca dela.
— Gah! KINO! — reclamou, engasgando com a carne mal mastigada.
O garoto riu, os olhos brilhando de satisfação.
— Ayla não conseguir nem em cem luas — cuspiu um osso no chão, o rosto franzido. — Guti achar que Ayla não consegue — murmurou, fitando a palha seca como se pudesse incendiá-la apenas com o olhar.
Kino, porém, balançou a cabeça, os cabelos loiros balançando com o movimento.
— Ah! Velho desafiar Ayla. — disse, analisando a madeira queimada e as mãos feridas dela. — Ayla conseguir antes, velho dar muito tempo.
[...]
Lucca, terminando de alimentar a fogueira, recostou-se contra a parede da caverna. Suas mãos deslizavam sobre sua pistola com a meticulosidade de um artesão polindo uma obra-prima. Cada ajuste, um diálogo silencioso entre criação e criadora.
Marle, por sua vez, concentrava-se em Crono. Seus dedos pairavam sobre os arranhões em seus braços, emanando uma luz tênue que sarava a carne ferida. Quando terminou, ergueu os olhos e percebeu Ayla observando-a do outro lado do fogo. O olhar era uma mistura de curiosidade e algo mais profundo — uma interrogação muda sobre aquela magia que transcendia seu entendimento.
— Você também está machucada? — perguntou Marle com um sorriso.
Ayla não respondeu. Olhava para o braço sarado de Crono como um animal selvagem hipnotizado pela luz. Crono a fitou. Marle a olhava. Ayla estava em outro lugar.
— Kino! Segurar Ayla!
Ayla gritava, um som visceral que misturava ódio e agonia. Sua voz cortava o ar sufocante da tenda, onde homens e mulheres se moviam através das paredes de palha como sombras em meio à confusão.
A ordem veio seca, firme, cruel. Kino estava ali, todo ferido e sujo, marcas de luta gravadas na pele e nas roupas rasgadas. Ele a segurava com braços trêmulos, os olhos baixos, dentes cerrados, via unhas cravarem-se em sua carne como farpas.
— Expulsar reptites!
O grito de um guerreiro irrompeu. Do lado de fora da tenda, uma batalha furiosa escalava. Os reptites haviam seguido o rastro de Kino, que trouxera Ayla nos braços após fugirem. A aldeia inteira estava em polvorosa. Um baque seco se ouviu com gritos de guerra e terror.
A xamã inclinava-se sobre a perna de Ayla, puxando-a com mãos experientes, mas brutais. Guti chegou por trás, abaixando-se lentamente. Em suas mãos, ele segurava um pedaço de couro enrolado, que colocou entre os dentes de Ayla. O gesto era calmo, mas carregado de urgência. Havia algo terrivelmente errado ali — o fêmur quebrado, exposto, deslocado. A dor lancinante fazia seus músculos se retesarem cada vez mais.
Ayla mordia o couro com toda a força que lhe restava. De seus avermelhados olhos azuis brotavam lágrimas de dor e raiva. O ancião ergueu o olhar para Kino, impassível, mas com um peso em seus traços envelhecidos.
— Só vocês voltar?
— Proteger Ayla! — berrou Kino, mais para si mesmo do que para os outros.
A xamã puxou a perna ferida, e Ayla sentiu o mundo explodir em vermelho.
Os gritos de guerra e morte escalavam do lado de fora. Kino pressionava seu corpo contra o de Ayla, tentando imobilizá-la, enquanto ela debatia-se como uma fera acuada. Suas unhas afundavam-se nos braços dele, deixando sulcos vermelhos que logo começavam a sangrar.
— Ver? Ayla trazer perigo! Reptites seguir Ayla!
As palavras do velho chefe de Laruba saiam secas. Estava parado no fundo da tenda, sua postura altiva contrastando com o horror que se desenrolava ao redor.
Mas Ayla não ouvia nada além de seus próprios gritos. A curandeira ao lado da xamã posicionou suas mãos sobre sua perna.
— Agora! — ordenou a xamã enquanto puxava a perna.
Quando a curandeira empurrou o osso de volta ao lugar, o corpo de Ayla arqueou, enterrou as unhas em Kino com tanta força que parecia querer arrancar sua carne. Ela fechou os olhos, apertando-os até ver estrelas dançarem atrás das pálpebras.
Lágrimas rolavam pelo rosto de Kino, caindo sobre o de Ayla. Quentes.
— Ayla saber que reptites ser mais fortes! Eles viver antes de nós! — o chefe de Laruba continuava seu discurso acusatório, sua voz elevando-se acima do caos. — Olhar quantos de nós Ayla levar pra morrer!
A curandeira mantinha a perna de Ayla no lugar, pressionando peles sobre a ferida aberta para estancar o sangramento. Mas o sangue não parava. A xamã observava com preocupação crescente, seus olhos fundos refletindo o fogo.
Guti, que colocara o pano na boca de Ayla, suspirou profundamente. Abaixou seu cachimbo ao lado da pele manchada de sangue onde Ayla jazia. A xamã estendeu a mão e retirou uma lâmina de pedra das brasas, incandescente, brilhando em suas pupilas.
O ancião posicionou-se atrás de Kino, preparando-se para ajudá-lo a segurar Ayla. Lá fora, os gritos de guerra ecoavam, e um guerreiro desesperado surgiu correndo, gritando:
— Reptites levar crianças!
Ayla abriu os olhos nesse instante, e o que viu foi o terror absoluto. Ela gritou, seu olhar refletindo a lâmina escaldante nas mãos da xamã. Guerreiros cercavam a tenda.
— Prende Kino. — ordenou o ancião de Ioka.
Kino sentado sobre ela, segurava seus braços, Guti sua perna.
A xamã aproximou-se. Ela olhou para a curandeira, que ainda pressionava a pele contra a ferida.
— Tira.
Assobios de lanças cortando o ar eram ouvidos.
— Ioka precisar Ayla. Ayla viver... Lutar. — o ancião falou essas palavras como uma promessa, e como um comando. Seus olhos encontraram os de Ayla por um breve momento. — Ayla ser chefe de Ioka.
A xamã não hesitou. Ela aproximou a ponta incandescente na pele de Ayla, e um som horrível, de algo fritar, preencheu a tenda. Por um instante, Kino sentiu-se criança segurando um Terasaur. Ayla espasmou, seu corpo inteiro convulsionou. O grito que escapou de sua garganta empurrou o couro de sua boca e cortou o ar como uma lâmina, erguendo-se acima de todos os outros gritos na aldeia. Um eco de dor e vingança tão profundo que partiu o coração de Ioka.
E então, tudo ficou em silêncio.
Quando Ayla finalmente desmaiou pela dor e pelo esforço, Kino abaixou a cabeça e chorou em silêncio. O ancião afastou-se, limpando as mãos em seu manto. A xamã suspirou, soltando a perna de Ayla. Lá fora, a batalha ainda era travada, mas ali dentro, o combate havia terminado. Ayla viveria. Mas o preço era pago com cicatrizes.
No corpo e na alma.
Ayla piscou, arrancada do passado pela mão suave de Marle em seu ombro.
— Ayla? — repetiu a princesa, agora mais próxima.
Ela balançou a cabeça, dissipando as sombras.
— Ayla bem! — declarou para Marle, erguendo o braço e flexionando os músculos com um orgulho quase infantil.
Crono e Marle trocaram olhares divertidos, enquanto Lucca, ocupada em desmontar sua pistola, murmurou sem desviar os olhos da arma:
— Nunca vi alguém tão durona quanto você, Ayla. Nem nos livros de história.
Ayla inclinou a cabeça. "Livros de história" não fazia sentido para ela, mas o tom de admiração na voz de Lucca era claro. Aceitou o elogio com um sorriso largo.
Marle observava a líder tribal com uma mistura de afeto e fascínio. Havia uma pureza em Ayla que contrastava com sua ferocidade.
"Ela não sabe ser outra coisa além de verdadeira" pensou.
Até suas brincadeiras mais ásperas carregavam uma inocência desarmante.
Foi então que o silêncio da caverna foi rompido por um rugido estrondoso. Todos se viraram, alarmados, para o som... do estômago de Crono.
— Quê?! — Marle arqueou uma sobrancelha, tentando conter o riso. — Isso foi mais alto que um trovão!
Crono coçou a nuca, as orelhas vermelhas de constrangimento. Lucca, por outro lado, explodiu em gargalhadas, batendo com a mão na pedra ao lado.
— Credo Crono, tem buraco não?! — apontando para o abdômen de Crono.
Ayla riu também, mas logo seu rosto se iluminou com uma decisão súbita. Levantou-se num movimento fluido e posicionou-se na entrada da caverna. A chuva ainda caía em cascatas, transformando o mundo lá fora em um borrão cinzento.
— Saír rápido! — disse. — Não comer nada. Ayla caçar.
— Espere! — Marle levantou-se de supetão, as mãos estendidas como se pudesse fisicamente detê-la. — Você não pode sair assim, na chuva! É perigoso!
Lucca, já recomposta do acesso de riso, ajustou os óculos e cruzou os braços.
— É só fome, Ayla. Podemos esperar a tempestade passar.
Mas Ayla já estava imóvel como uma estátua, os olhos fixos na cortina d’água. Virou-se para eles, o sorriso predatório de quem conhece a floresta melhor que qualquer um. Apontou para Crono, como se seu estômago roncando fosse a prova definitiva.
— Crono forte! Fome forte! Fome não esperar!
Antes que pudessem argumentar, desapareceu na chuva, deixando para trás apenas o eco de sua risada e o barulho de galhos sendo afastados.
— Essa garota... — Marle suspirou, massageando as têmporas.
Lucca, já reorganizando suas ferramentas, deu de ombros.
— Pelo menos ela não vai morrer de tédio. — Fez uma pausa, então acrescentou, num tom mais baixo: — ... tão meiga.
Crono olhava a entrada da caverna onde Ayla desaparecera. Queria ir lá e trazê-la de volta, mas ela já estava, certamente, longe.
E assim, naquela caverna úmida, cercados pelo som da chuva e pelo cheiro de madeira queimada, o grupo aguardou. Não pela caça, mas pela certeza de que, em breve, Ayla voltaria — triunfante, encharcada e sorridente.
Ayla movia-se como um pássaro dançante entre as árvores. A chuva escorria por seu corpo sem que ela sequer notasse a fria umidade. Para ela, a selva não era um obstáculo, mas uma aliada — cada galho um apoio, cada folha um mapa. Saltava entre as árvores com a precisão de um predador, os olhos azuis varrendo o verde em busca de frutas maduras, cujo cheiro doce nem a tempestade abafava.
A pele que cobria seu torso era um cesto improvisado, enchia-se devagar com os tesouros colhidos: bagas vermelhas como rubis, frutos amarelos que exalavam perfume tropical. Parou de pé em um galho largo, equilibrando-se com a naturalidade de um felino. Pegou uma fruta, sua casca lustrosa sob a chuva, e a girou entre os dedos. A parte inferior, escura e macia, entregava a podridão escondida.
"Crono não quer isso"
Arrancou o pedaço sadio com os dentes, arremessando o resto fora. O sabor ácido explodiu em sua língua, mastigava calmamente.
Um raio cortou o céu. A fogueira crepitante, as risadas de Lucca, o pulso firme de Crono a segurando para não cair, o calor de seu corpo, o silêncio sob o céu. Por um instante, ali no galho, Ayla congelou. A chuva caía em cascatas ao seu redor, ela mal sentia as gotas. O trovão rugiu, sacudindo o ar, e ela piscou, voltando a si como quem acorda de um sonho vívido.
Era uma sensação nova, quente e boa, crescia em seu peito, criando raízes. Não era dor, não era medo — era algo que queimava devagar, alimentado por cada lembrança de Crono, por cada olhar que ele lhe dirigia. Ayla, que sempre conhecera a força bruta da sobrevivência, agora se via diante de uma fraqueza desconcertante. Não dos músculos ou da coragem, mas do coração.
Sacudiu a cabeça. Olhou para o bolsão cheio de frutas.
— Chega... — concluiu, e decidiu retornar.
Mas algo mudara. Antes, ela atravessava a floresta com a mesma energia impulsiva de sempre. Agora, seus movimentos eram mais cautelosos, mais deliberados. Inconscientemente, ela estava tomando cuidado — não porque temia cair ou ser atacada, mas porque algo dentro dela gritava para que ela voltasse intacta.
Ela corria de volta à caverna, as frutas seguras contra o peito, carregando consigo uma certeza. Crono era sua paz.
A chuva caía sem tréguas, dissolvendo o horizonte em uma massa informe de névoa. Um mundo desbotado, a tempestade lavou o azul do céu. Dentro da caverna, a fogueira dançava contente, tecendo uma redoma de calor na umidade. Gotas d’água escapavam dos cabelos de Marle, cintilando como pérolas perdidas, Lucca, com os óculos embaçados, gesticulava explicando teorias sobre Lavos e Magus, o foco principal.
Crono, em silêncio, levantou-se como uma sombra desprendendo-se da parede. Movia-se até a entrada da caverna, a luz do fogo lambendo suas costas. Sua silhueta recortava-se contra a cortina de chuva. Os olhos vasculhavam o céu revolto, tentando decifrar uma brecha entre as nuvens. Nada de trégua. Apenas o som da conversa entre Marle e Lucca, o crepitar das chamas e o sussurro da chuva. O mundo suspenso, respirando em compasso com a espera.
Antes que Crono pudesse sequer erguer os olhos, um vulto loiro rompeu o véu cinza. Ayla despencou de uma saliência rochosa, aterrissando à sua frente como um felino. As frutas que carregava oscilaram, ameaçando escapulir, mas nenhuma rolou para o lamaçal.
— Ayla! — Crono arregalou os olhos, o susto misturando-se à admiração, fios loiros colados ao rosto, a água escorrendo em fios prateados por entre os ombros. Ela estava encharcada, mas os olhos azuis brilhavam com a mesma intensidade, e o sorriso subia com o erguer do rosto.
— Wah! — ele agarrou-a pelo pulso e a puxou para a caverna, quase tropeçando nos próprios pés. O calor da fogueira os recebeu, Ayla ainda trazia consigo o frio da tempestade, um contraste que fez Marle e Lucca se levantarem num pulo, largando o que faziam.
— Você vai pegar uma pneumonia desse jeito! — Lucca ajustou os óculos, a voz esganiçada. — Olha só pra você! Parece um pinto molhado!
Marle, já desembaraçando folhas do cabelo de Ayla com dedos ágeis, balançou a cabeça:
— Não precisava sair assim, no meio da chuva! — Olhou para Crono, acusadora. — Ele não ia morrer de fome, sabia?
Crono encolheu-se, sem jeito. O estômago dele tinha roncado alto, mas ele jamais pediria para Ayla sair daquele jeito. Enquanto isso, esvaziava a pele improvisada com Lucca, depositando as frutas no chão como oferendas. Ayla, porém, não parecia arrependida. Sorria, os dentes brancos contrastando com os lábios pálidos pelo frio.
— Comam! — ordenou Ayla, o braço estendido em um arco que englobava as frutas como um manjar dos deuses.
Lucca, ajoelhada diante do banquete, segurava uma fruta de casca vívida, quase iridescente sob a luz das chamas.
— Essa aqui parece uma joia — murmurou, girando-a entre os dedos. — É quase um crime comer algo tão... perfeito.
Marle terminava de desembaraçar os últimos fios do cabelo de Ayla. Seus movimentos eram suaves, mas precisos, como se domasse uma criatura selvagem. Ao passar a mão pela nuca da líder tribal, seus dedos encontraram uma textura diferente: uma grande cicatriz, serpenteante, tomou a ponta de seus dedos. Ela hesitou, surpresa, por um instante, mas continuou.
Ayla, porém, observava-a de soslaio, os músculos do rosto tensos como cordas de arco. Quando Marle sorriu — um gesto frágil, cheio de compreensão silenciosa —, algo se rompeu. A líder tribal desviou o olhar, mas não antes que Marle visse: um lampejo de gratidão, rápido como o bater de asas de um beija-flor.
[...]
O grupo devorara as frutas até os caroços brilharem como pedras polidas, e o ar da caverna dançava com risadas que se misturavam à fumaça do fogo. Marle, os lábios tingidos de roxo pelo suco, estendeu os braços como uma criança satisfeita:
— Ai que delícia!
Lucca limpava os cantos da boca usando um lenço bordado que retirara do bolso, sua voz teatral:
— Um deleite palatável, sem dúvida. — Fez uma pausa, erguendo um dedo como se anunciasse uma grande descoberta.
— Não vou embora sem levar algumas sementes. Com certeza não.
A palavra "embora" pairou sobre o Ayla como uma pedra atirada em águas calmas. Ela, que até então irradiava orgulho ao ver seus amigos devorarem os frutos, estacou. Seu sorriso deslizou lentamente, como mel escorrendo de uma colher virada. Os olhos azuis, antes brilhantes como o rio sob o sol, fixaram-se em Crono.
"Ir embora..."
Aproximou-se do fogo, remexendo as brasas com um graveto até que faíscas subiram, iluminando seu rosto pensativo.
— Ayla mostrar coisa... antes de amigos ir. — Estendeu a mão na direção de Lucca, os dedos abertos como garras. — Depois que pegar chave, Ayla levar amigos lá.
Marle inclinou-se para frente, os cabelos dourados caindo sobre os ombros como uma cascata curiosa:
— Mostrar o quê?
Ayla, porém, apenas riu alto e balançou a cabeça.
— Surpresa! Ayla não falar!
Lucca empurrou os óculos até a ponte do nariz, um sorriso irônico dançando nos lábios:
— Vindo da Ayla, é coisa boa, certeza.
Ayla concordou com um aceno vigoroso, concordando com Lucca.
Após devorarem as frutas até restarem apenas caroços lustrosos, o grupo dispersou-se em rituais íntimos. Lucca ocupava um canto plano, desmontando sua pistola com dedos ávidos. Peças reluzentes — engrenagens, parafusos, molas — alinhavam-se sobre uma laje como oferendas tecnológicas. A luz do fogo refletia em seus óculos, transformando-os em dois sóis diminutos enquanto ela murmurava sobre ferrugem, a língua entre os dentes como uma criança enquanto forçava um parafuso.
Marle, sentada de pernas cruzadas, entrelaçava hastes flexíveis e pétalas coloridas. As flores silvestres, colhidas acidentalmente entre os frutos, exalavam um perfume suave que se misturava ao aroma de lenha queimada. Seus dedos transformavam caules em tranças, criando uma coroa tão efêmera quanto a calmaria daquele momento. De vez em quando, erguia o trabalho à altura dos olhos, avaliando-o com um sorriso tímido — imaginando como ficaria nos cabelos desgrenhados de Ayla.
A própria repousava de bruços próximo às chamas, o corpo ainda guardando a elasticidade felina de quem nunca descansa por completo. Um graveto na mão, cutucava as brasas com golpes precisos, fazendo faíscas ascenderem em espirais douradas. O calor tingia sua face de rubor, e seus cabelos loiros, ainda úmidos, brilhavam como fios de cobre. Quando uma centelha voava alto demais, ela sorria, revelando dentes brancos que eram mais como presas afiadas — uma expressão simultaneamente inocente e selvagem.
Crono, afastado alguns passos do círculo principal, mantinha-se sentado próximo a entrada, buscando mais luz. A katana repousava sobre seus joelhos, seus dedos deslizavam pelo metal, cada passada da pedra de afiar ecoando um shink suave, quase musical. Seus olhos, porém, não estavam na lâmina — vagavam entre os companheiros, pousando em Marle enquanto ela cantarolava baixo, em Lucca ao ouvi-la resmungar e rir depois, em Ayla quando ela soltava um grunhido de satisfação ao ver as chamas crescerem. Sua quietude era vigilante. Pingos esporádicos escapuliam pelas fendas do teto, caindo na fogueira com sibilos de desafio. O contraste era quase poético: lá fora, o caos líquido; aqui dentro, a ordem frágil de pequenos gestos cotidianos...
Até um jorro de água irromper pela entrada da caverna, com o vento tempestuoso. Lucca deu um pulo, protegendo as engrenagens com o corpo como uma galinha sobre seus filhotes metálicos.
— Santa Chave-inglesa! — berrou
As garotas viraram-se, testemunhando a invasão do caos — e ali, no epicentro do turbilhão, estava Crono. A água escorria em fios escuros por seu rosto, a camisa colada ao torso como uma carapaça translúcida.
— Tadinho!
Marle cobriu a boca com as mãos, os ombros tremendo de riso contido. A coroa de flores, agora completa, balançava em sua mão como um pendulo de fragilidade ante a força bruta da natureza. Seus olhos brilhavam com uma luz travessa ao ver Crono sacudir a cabeça como um cão encharcado, gotas voando em arcos que capturavam o âmbar das chamas. Lucca limitou-se a erguer uma sobrancelha.
— Volta o cão arrependido... — disse ela.
Ayla observava tudo de bruços, o queixo apoiado nas mãos entrelaçadas. Seus pés descalços balançavam no ar, os dedos encurvados como garras relaxadas. Quando Crono desabou próximo ao fogo ela emitiu um ronrono baixo de aprovação — o som de uma felina satisfeita com o espetáculo. Marle aproximou-se num volteio de saia, coroa erguida como uma relíquia. Ayla inclinou a cabeça, curiosa, enquanto as flores desabrochavam em sua crina loira.
— Uma coroa.. — sussurrou Marle, ajustando uma haste rebelde. — para uma rainha.
Ayla tocou a trança de flores com a ponta dos dedos, gesto cauteloso, temendo desfazer o adorno.
— Rainha...? — perguntou, testando a palavra na língua.
— Rainha, forte, bela... — Lucca assentiu, enfiando um parafuso teimoso com um clique satisfatório.
— E guerreira. — completou Marle.
Ayla olhou para ela.
Crono, agora envolto no abraço seco do calor, inclinou-se para frente. Seu gesto de reverência foi lento, quase cerimonial, a cabeça curvando-se até que os fios de cabelo úmido tocaram o chão.
— Ordens, Majestade?
A gargalhada coletiva ascendeu como faíscas. Lá fora, o vento continuava a arranhar a montanha, mas dentro, o mundo reduzia-se ao círculo dourado do fogo onde uma rainha de flores governava dentro de uma caverna.
Uma risada fina, um guinchar de morcego.
Uma menina de olhos cor de mel, tranças adornadas com flores de urucum, apontou para os braços de Ayla enquanto brincavam na margem do rio.
— Parecer casca de árvore queimada — debochou, os dentes brilhando como sementes de baru ao sol.
As outras crianças gargalharam, mas Ayla mergulhou na água gelada, deixando o rio engolir o som das palavras.
"Casca proteger" pensou, enquanto afundava.
Naquela noite, porém, sob uma lua de prata, ela se viu nua diante do lago turvo da aldeia. O reflexo na água revelava um mapa de cicatrizes: rios secos cruzavam seu torso, garras invisíveis marcavam as coxas, os braços com marcas em relevo, suas costas...
Ayla não nascera em Ioka. Crescera nas entranhas da selva, ao relento, ao mormaço, aonde o frio mordia como fera faminta, aonde raízes amargas eram o suco que matava a sede e a fome era sua segunda sombra. Enquanto as outras crianças de Ioka exibiam peles morenas, untadas com óleo de castanha, a dela era um pergaminho rasgado, escrito em língua de sangue e fogo.
"Feia"
Kino a encontrou três luas depois, escondida atrás dos juncos, arranhando os braços com uma pedra lascada. O sangue novo escorria sobre as marcas antigas, tingindo a água de ferrugem.
— Saia! — rosnou ela, os dentes à mostra, olhos marejados.
Mas Kino não saiu. Agarrou seus pulsos com força, seus olhos eram os mesmos de sempre: redondos, azuis, cheios de uma pena que não cabia em palavras.
— Para, Ayla!
Ela lutou, mordeu, esperneou. Queria arrancar a própria história.
— Por quê, Ayla? Por quê? — repetiu, a voz trêmula.
Ela não respondeu. Como explicar que cada cicatriz era uma corrente presa a um passado que ela não entendia? Que cada linha era um fantasma sussurrando solidão, frio e fome?
A luta cessa, Ayla desaba, seus soluços são silenciosos — aprendidos em noites de fuga solitária.
Kino a envolve em seu manto.
Na manhã seguinte, arrastou-a até a xamã, numa tenda cujo ar cheirava a raízes podres.
— Deita — ordenou, apontando para uma esteira de pele desbotada.
Ayla obedeceu, o corpo rígido como varapau. Os dedos calosos percorreram as feridas frescas, as cicatrizes antigas, enquanto Kino observava à entrada.
— Esta... — pausando sobre duas linhas paralelas na coxa, profundas como valas.
— ...dentes-de-sabre.
Os dedos desceram até os joelhos, onde a pele era um mosaico de tecido queimado e cicatrizes rugosas.
—...frio, neve...
Ayla estremeceu. Lembrava do frio que lhe roía as pernas, das lágrimas congelando nos cílios. A xamã continuou, os dedos agora pressionando uma marca semicircular que ia do braço ao antebraço
— ...presas de reptite.
A xamã levantou-a, ergueu a túnica, revelando um torso entalhado por cicatrizes.
Os dedos corriam pelas linhas em seus braços e pernas. Ayla virou o rosto, engoliu o nó na garganta.
Por fim, a anciã moveu seu cabelo, revelando a cicatriz que serpenteava da lombar à omoplata, como uma cobra de fogo petrificada.
— E esta... — a voz da xamã ecoou solene — ...fogo que receber Ayla no mundo.
A xamã então se levantou, virou-se de costas e ergueu as vestes: um corpo marcado por cicatrizes ainda mais profundas. Sulcos que contavam de lutas sob ataques reptites, golpes recebidos para salvar crianças, queimaduras de quando carregara brasas nas mãos para não deixar morrer o fogo.
— Luta... — sussurrou com frieza. — ...não ser vergonha, Ayla. Morte te cheirar, cuspir e fugir.
Kino, à entrada da tenda, murmurou baixo:
— ...Ayla ser a mais forte de Ioka. Só ela não saber.
[...]
Ayla ficara o dia todo na tenda, enrolada na pele de mamute que dormia.
Guti não interveio — algumas dores precisam sangrar antes de cicatrizar. À noite, entrou em sua tenda, jogou-lhe uma capa de pele de lobo e ordenou:
— Vem.
Ayla seguiu, descalça, sentindo o chão úmido da floresta transformar-se em pedra fria conforme adentravam a fenda oculta por samambaias gigantes. O ar cheirava a musgo antigo e fumaça.
Ninguém a cumprimentou. Ninguém precisava.
Ayla olhou em volta. Nunca estivera naquele lugar — o chão era coberto por peles de animais lendários, nas paredes, veios rubros pulsavam à luz das tochas, fundidos à rocha como cicatrizes da própria terra. Entre os homens e mulheres ali ela viu...
..um caçador com metade da face derretida por chamas, o olho esquerdo leitoso como osso polido...
...uma mulher com o braço esquerdo terminando em um coto, adornado com um bracelete de presas de reptite...
...o chefe, cujo torso era um mapa de cicatrizes entrelaçadas, cada corte uma história de guerra. Cada corte uma vitória.
Nenhum deles tinha pele lisa. Nenhum.
Guti apenas se sentou, puxando Ayla para ficar ao seu lado, e acendeu seu cachimbo. O cheiro de ervas amargas encheu o ar. O guerreiro sem rosto piscou o olho bom na direção dela. A mulher do braço único ajustou seu colar, os dentes de predador tilintando em desafio. O chefe, ao falar, ergueu a mão e a luz do fogo iluminou suas cicatrizes. Eram como rios secos.
Falavam dos reptites. Um ataque iminente. Planos de guerra. Estratégias de caça. Vingança. Resgate. Ayla não ouvia. Via.
Via que nenhum guerreiro ali escondia suas marcas.
Via marcas realçadas com tinta, como medalhas.
Via que, pela primeira vez, ela não era a mais marcada.
As cicatrizes deles conversavam com ela:
"Tirei meu filho da boca de um reptite. Levaram meu braço, mas não ele."
"Salvei família de queimar na chuva de fogo."
“Cada corte aqui é uma vida salva.”
E as dela respondiam:
"Dentes de um reptite afundaram na minha carne antes que eu cravasse uma pedra em sua garganta."
"Estrangulei um tigre que me atacou, rasgando minha carne com suas garras, tentando me abocanhar."
"Uma faca improvisada escapou da minha mão durante o desespero de esfolar um roedor."
Ayla observava-os, retraída. Olhares esporádicos corriam por seu corpo. Ninguém lhe dirigia a palavra. Apenas assentiam, como se lessem nela um pergaminho de sobrevivência. A xamã, sentada à direita do chefe, mantinha um olhar implacável sobre ela — olhos que enxergavam toda a sua história.
Guti não a trouxera para protegê-la.
Trouxera para mostrar-lhe o que ela realmente era.
Ao final, quando o fogo das tochas já dançava fraco, e Ayla ia embora com Guti em silêncio, o chefe ergueu a voz. Era como trovão no céu, o som reverberou por todo seu corpo, e ela tremeu:
— Menina!
Ayla não se moveu. Seus dedos, entretanto, cravaram-se na perna de Guti como garras. O ancião permaneceu imóvel, uma estátua esculpida pela paciência do vento, os olhos fixos no vazio à frente.
— Mostre a cicatriz que não ostenta! — ordenou o chefe.
Ela hesitou. A marca nas costas queimou.
Foi a xamã quem a convenceu. Seus olhos, duas brasas negras, encontraram os de Ayla por cima do ombro e sussurraram sem palavras: "Mostre-a, criança. Mostra o que ninguém vê."
Lentamente, Ayla despiu a túnica de couro até a cintura, puxando o cabelo para frente com os dedos, expondo as costas nuas. Naquela pele dourada, serpenteava da nuca à lombar, uma faixa escura e retorcida, como um rio de sombras congelado na pele. Não era bela. Era forte. Uma história escrita em carne. A morte a marcou. E não a levou.
O silêncio foi absoluto.
Ninguém aplaudiu.
Ninguém sorriu.
O guerreiro cego de um olho inclinou a cabeça. A xamã assentiu, satisfeita. O chefe ergueu seu machado de pedra, e o eco de rocha contra rocha fez a caverna tremer.
— Aqui dentro não entrar fracos! — rugiu ele. — Aqui dentro não entrar covardes! — ele arremessava o machado contra o chão. — Aqui dentro entrar guerreiros! Você, menina... —
Guti colocou a mão no ombro dela, quente e áspera como casca de árvore.
— Entrar aqui como guerreira!
Uma barragem começava a ceder. Ainda de costas, Ayla tentava segurar. As lágrimas queimavam seus olhos, grossas e quentes, escorrendo pela face como chuva em pedra quente.
— Isso ser o que somos! — bradou o líder apontando o peito marcado
— Essa ser a língua que falamos! — ergueu o machado
— Vive, Luta! Perde, Morre!
Os soluços sacudiam seu corpo, os dentes cerrados não conseguiam conter a tempestade dentro de si.
— Essa ser a língua dos guerreiros!
Guti mantinha o olhar fixo no horizonte.
— Diga seu nome! — ordenou o chefe.
— A... A... — Ayla engasgou-se com as lágrimas, a sílaba presa na garganta.
— DIGA SEU NOME!
"Pedra numa mão...
reptite na outra."
— DIGA SEU NOME MENINA!
"Não andar, não falar, não comer...
sofrer demais."
(O chefe se levantou.)
"Mim fazer tudo que pode...
só ela decidir agora."
— DIGA SEU NOME GUERREIRA!
"Se não ter nome..."
— DIGAAA! —
"... eu a nomeio..."
— DIG... —
"...AylaaAAAAAAA! —
— AYLAAAAAAA!
— AYLAAAAAAA!
A chuva lá fora havia cessado, mas o gotejar persistente ecoava no silêncio, marcando o tempo como um relógio subterrâneo. Crono foi o primeiro a se mover. Sacudiu a água que ainda escorria das madeixas vermelhas, a katana reluzindo fracamente na bainha enquanto a ajustava na cintura. Seus olhos fixaram-se na entrada — hora de seguir.
Lucca deu um chute brusco nas cinzas, fazendo faíscas fugirem como vagalumes assustados. Os óculos embaçados escorregaram para a ponta do nariz, e ela os empurrou com um dedo manchado de fuligem.
— Vamos lá? — a pistola já segura nas mãos. — Crono, não quer voltar? Anda meio azarado hoje… — zombou do amigo.
Crono resmungou, virando o rosto, mas os cantos da boca curvaram-se num quase-sorriso. Sua mão repousou no cabo da katana, a postura séria de um espadachim confiante.
Marle terminava de prender o cabelo em um rabo de cavalo perfeito, as pontas douradas ainda úmidas. Seu arco tilintou suavemente quando o ergueu. Olhou para Ayla com um sorriso leve.
— Pronta Ayla? — disse, a voz melódica pairando no ar.
Ayla não respondeu. Seus dedos traçaram a borda da coroa de flores que Marle lhe dera — um toque de delicadeza em um corpo esculpido para a guerra. Com um movimento calmo, depositou a coroa sobre uma pedra lisa, no canto da caverna.
— Ayla voltar — disse, erguendo o rosto. Os olhos azuis cravaram-se em Marle, não no adorno deixado para trás. — Prometer.
Marle sorriu, inocente. Ayla virou-se antes que pudesse ver a sombra que cruzou seu próprio olhar — um lampejar de apreensão, rápido e engolido pela escuridão. O gesto não foi de despedida, mas de contrato.
O grupo avançou em fila: Crono à frente, a katana meio desembainhada; Ayla atrás, agora mais séria; Marle e Lucca no centro, uma delicada, a outra praguejando contra a lama grudenta em suas botas. A luz exterior banhou-os em dourado, tão abrupta que Marle precisou tampar os olhos.
Na caverna, a coroa de flores permanecia. Uma gota d’água escorreu da pedra, mergulhando nas pétalas como uma lágrima que ninguém veria cair. Fora, o vento trouxe um rugido distante — profundo, forte. Ayla ergueu o olhar. Crono parou ao seu lado, assim como as garotas.
— Ir! — declarou Ayla.
A selva respirava úmida e pesada, ainda tremendo sob o peso da tempestade. Na terra encharcada, e no ar carregado de petricor, misturava-se o cheiro ácido de folhas apodrecidas com o doce aroma silvestre. Ayla liderava o grupo com precisão — cada movimento era memória e instinto. Seus olhos azuis estavam fixos em um ponto no horizonte além da selva.
— Perto. — anunciou, sem voltar o rosto.
Marle tropeçou em uma raiz oculta pela lama, mas Crono a segurou pelo braço antes que caísse. Lucca, alguns passos atrás, observava Ayla com os óculos embaçados de umidade.
— Ela está acelerando... — murmurou
Eis que então, a selva estremece com um assobio. Dois reptites surgiram à frente, escamas verde-esmeralda brilhando sob a luz filtrada, garras curvadas como foice. Crono desembainhou a katana num movimento fluido, mas Ayla já estava em movimento. Seus punhos cerrados atingiram o primeiro adversário com um estalo seco, quebrando-lhe o maxilar antes que ele pudesse rugir. O segundo reptite saltou, presas expostas, mas ela girou no ar como um redemoinho, a perna descrevendo um arco brutal que o arremessou contra uma árvore.
— Ayla, espera! — Marle gritou, avançando para enfrentar um terceiro que emergira da folhagem.
Ela não ouviu. Ou não quis ouvir. Seu corpo era uma tempestade: cotovelos quebravam costelas, joelhos esmagavam gargantas, dedos cravavam-se em juntas frágeis. Um sexto reptite tentou agarrá-la por trás, mas ela arqueou as costas e o projetou por cima dos ombros, esmagando-lhe o crânio contra uma rocha com um chute preciso.
Crono congelou por um instante, a katana suspensa. Nunca a vira lutar assim — não com técnica, mas com fúria. Cada golpe era como um acerto de contas.
— Ela vai se machucar! — Marle puxou a corda do arco, mas não havia alvo livre. Ayla dominava o caos.
Lucca observava, os óculos embaçados de suor.
— Não... ela é incrível — murmurou, notando como Ayla desviava de golpes por milímetros. — Ela conhece cada movimento reptite.
O último reptite, um macho de crista dorsal serrilhada, recuou, sibilando. Ayla avançou, agarrou a cabeça do réptil entre as mãos e enterrou-lhe os pés no peito. O estalo ecoou pela selva como um trovão mudo.
Por um momento, só se ouviu o respirar ofegante de Ayla. Seus ombros subiam e desciam em ritmo acelerado, os dedos ainda crispados como garras. Crono a encarou.
— Amigos… bem? — sussurrou ela.
Marle abaixou o arco lentamente. Lucca ajustou os óculos, a expressão tensa.
— Ela está... diferente — Marle sussurrou para Crono, os dedos apertando o arco até os nós branquearem.
Ele assentiu, silencioso. Desta vez, até ele notara: o modo como Ayla arrancara a vida daqueles reptites não era só eficiência. Era pessoal.
Seguiram por mais algumas dezenas de metros, quando finalmente pararam. Ayla congelou diante de um emaranhado de cipós e folhas largas que ocultavam a base de um rochedo. Seu peito subia e descia em ritmo acelerado, o punho cerrado.
— É ali? — Lucca aproximou-se, tentando enxergar além da cortina vegetal.
Ayla não respondeu. Seus olhos estavam presos na entrada cavernosa que se espremia entre as rochas, negra como a boca de um morto. A luz do sol, fraca sob as nuvens rasas, não penetrava além do primeiro metro.
— Ayla? — Marle tocou seu ombro, leve.
A líder tribal estremeceu, como se acordando de um transe.
— Sim... — respondeu, por fim, mais relaxada. — ...ali.
Os olhos de Lucca estreitaram. Ela observou os reptites ao redor do covil, suas escamas ainda tremeluzentes sob a luz difusa, e franziu a testa.
— Esperem... — interrompeu, ajustando os óculos. — Esses bichos não parecem inteligentes. Lutam como animais, sem estratégia. Por que roubariam a chave? Eles nem devem saber o que é!...
Marle cruzou os braços, pensativa.
— …Kino roubou a chave de nós, mas os reptites a tomaram dele... É estranho. — indagava Lucca.
Crono inclinou a cabeça, os olhos verdes cravados na entrada do covil. Ayla permaneceu em silêncio, mas seus dedos apertaram a folha que segurava.
— Azala…— disse ela, por fim, a voz mais baixa que o sussurro do vento. — …reptites não querer chave, mas trazer para Azala.
O nome ecoou como um mau presságio. Lucca ergueu uma sobrancelha:
— Azala?
Ayla virou-se para o grupo, os olhos azuis frios sob a sombra das árvores.
— Azala líder reptite. Mal. Atacar humanos, queimar aldeias. — Suas palavras eram curtas, afiadas. — Azala não como outros. Esperto. Cruel. Inimigo Ioka.
Marle engoliu seco.
— Então ele é... um dinossauro inteligente?
— Azala… — rosnou Ayla — …pensar como humano. Não ter coração.
Lucca franziu a testa.
— Se ele é tão esperto, vamos precisar ter mais cuidado.
Ayla olhou para o covil, sua sombra alongando-se como uma serpente prestes a atacar.
— Azala gostar de jogar. Esperar. Ver fraco. Aí... atacar.
O silêncio que se seguiu foi cortado por um guincho agudo vindo das profundezas da caverna.
— Entrar. Não separar. Prontos? — perguntou Ayla, virando-se para os companheiros. Seu sorriso era uma linha fina, passando confiança ao grupo. Crono e as garotas assentiram.
Saltaram das folhagens, rompendo a barreira de cipós. O campo aberto entre eles e a entrada era um corredor de morte: reptites emergiram de tocas ocultas, escamas vibrantes sob a luz difusa, guinchos guturais rasgando o ar. Crono desembainhou a katana, a lâmina cintilando como um raio prateado. Marle esticou o arco, a flecha já silvando antes que o primeiro adversário desse dois passos. Lucca ajustava mira na pistola — click, bang — e um reptite tombou com um buraco fumegante entre os olhos amarelados.
Ayla, porém, era pura fúria. Arremessou-se como um furacão loiro. Cada golpe era preciso, frenético. Seus chutes arrebentavam ossos, seuss socos derrubavam reptites dezenas de vezes mais pesados.
— PARA COVIL! — gritou ela, a voz ecoando como um chamado de guerra.
O grupo avançou em formação instintiva: Crono protegendo os flancos, Marle cobrindo à distância, Lucca calculando ângulos de fogo. Ayla era a ponta de lança, um vendaval de força que deixava para trás um rastro de corpos retorcidos e sangue negro escorrendo entre as presas.
Quando alcançaram a entrada, ela suava, mais que o normal. Os cabelos colados ao rosto como uma máscara dourada. Por um instante, seus olhos pousaram em uma marca na entrada — três linhas profundas, talhadas por garras gigantescas.
— Entrar! — ordenou, mergulhando na escuridão.
O vento sacudia as peles de lobo na entrada da tenda, fazendo-as estalar como asas de morcego. Cada golpe de ar trazia consigo o cheiro de cinzas e o murmúrio distante do rio Ioka. Kino parou diante da entrada, os dedos calejados fechados em torno da pedra carmesim. O objeto era mais frio do que ele esperava, mas era tão… intrigante.
"Ayla ergue a pedra sob a luz da lua cheia, seu rosto iluminado por uma determinação que fazia até os guerreiros mais velhos se encolherem. Crono estende a mão, hesitante, mas ela fecha os dedos sobre seu punho com uma força que quase o faz gemer.
— Lutar forte, como Ayla — ela ri, o som áspero e quente como brasa recoberta de cinza."
— Ayla ir para covil... — Kino engoliu as palavras junto com o gosto amargo da saliva. Sua voz soou rouca, como se tivesse engolido poeira.
Dentro da tenda, o ar era denso com o aroma de urtigas queimadas — remédio para feridas. Guti parou de moer as ervas no pilão de pedra, os dedos manchados de verde. A xamã, entretida em tecer um cesto de junco com os dedos, ergueu os olhos lentamente. Seu olhar era de quem aguardava.
— Kino ter medo que... — ele apertou a pedra, sentindo suas bordas irregulares cortarem a pele já marcada por cicatrizes de batalha. A dor era mínima, quase reconfortante. — ... Ayla não voltar.
Guti esfregou os dedos tingidos contra o couro das vestes, deixando marcas verdes que lembravam veias de folhas mortas.
— E porque Kino não ir atrás? — o velho inclinou a cabeça, os sulcos profundos no rosto escurecendo sob a luz bruxuleante da fogueira. — Kino saber o que acontecer antes.
Era uma isca. Kino conhecia o jogo: Guti sempre usava o passado como faca para abrir feridas não confessadas. Mas desta vez, a ferida não era orgulho, nem ciúme. Era algo mais profundo — uma cicatriz na memória que doía só de lembrar.
— Ayla mandar Kino voltar Ioka — ele rosnou, as palavras saindo entre dentes cerrados.
A xamã inclinou-se para frente. Seus olhos, dois poços de breu sob a testa enrugada, perfuraram Kino.
— E Kino vir até nós porque...? — ela perguntou, os dedos ainda entrelaçando junco com a precisão de quem sempre fizera aquilo.
Kino não respondeu. Seu olhar fugiu para a pedra carmesim, onde a luz do fogo dançava. Por um instante, viu-se ali — não como um guerreiro, mas como a criança que anos atrás encontrara Ayla à beira do rio, ensanguentada e sozinha.
— Kino não querer ser... — ele começou, mas a voz quebrou. Não querer ser inseguro. Não precisava dizer. A xamã já sabia.
"A perna de Ayla pendia como um galho quebrado, o osso rompendo a pele. Ela gritava e rugia — uma máscara de dor esculpida em ódio. Kino a carregava nos braços, o calor do sangue dela escorrendo entre seus dedos. Às suas costas, uma sombra enorme avançava. Os guerreiros de Ioka gritavam, lanças quebrando contra escamas como casca de árvore seca. Uma delas, Lana, engasgou com seu próprio sangue ao ser empalado pelas costas. Ayla cravou as unhas no braço de Kino com força desesperada, gritando:
— LARGA KINO!"
Guti suspirou, erguendo-se com um gemido que carregava o peso de todas as estações que testemunhara. Seus ossos estalaram como gravetos sob uma bota.
— Então? Por que Kino não ir? — perguntou, secamente, como se estivesse discutindo o tempo, não o destino da tribo.
Kino sentiu os dentes se cerrarem até doerem.
— Kino não saber... — engasgou, as palavras grudando na garganta como sebo ressecado. Então, forçou-as para fora, cada sílaba um corte: — Ayla confiar nos guerreiros de depois de amanhã.
A xamã soltou um som baixo — não um riso, mas o rosnado de uma loba diante de uma presa ferida. Seus dedos não pararam de tecer, entrelaçando junco como se costurar fosse seu último dever.
— Ayla não querer confiar neles, Kino, Ayla querer confiar em Ayla.
O cheiro de fogo e sangue invadiu as narinas de Kino como uma maré...
"Uma noite em chamas. O céu rasgado por gritos, uma silhueta monstruosa projetava-se nas nuvens de fumaça como um deus da destruição. O líder de Ioka agarrou Ayla pelo rosto, seus dedos cravando-se em suas maçãs altivas.
— SALVAR POVO! — ele urrou, voz rouca de cinzas.
— NÃO! LUTAR JUNTO! — Ayla cravou as unhas no braço dele, tentando se soltar. Ele arremessou-a para trás como um saco de grãos, ela rolou no chão, levantando-se num instante, mas um grupo de mulheres e crianças a agarrou — mãos suplicantes, rostos marcados por fuligem e terror. — AYLA! — Kino gritou, mas sua voz foi engolida pelo estrondo de uma cabana desmoronando. — IR! AGORA! — gritou o chefe, encarando os olhos azuis incandescentes de fúria impotente no meio da fumaça."
A xamã observou-o, os olhos negros refletindo o brilho rubro da pedra.
— Kino fazer o mesmo que Ayla fez? — perguntou, os dedos ainda dançando entre os juncos. — Kino entender o que Ayla fez?
Guti aproximou-se, o cheiro de raiz amarga e entorpecente envolvendo-o como um manto. Parou diante de Kino, seu olhar perfurante como a ponta de uma lança de gelo.
— Kino saber o que pedra significar? — ele ergueu a mão, apontando para o objeto ensanguentado.
Kino assentiu, a voz presa em um nó de emoção. A pedra não era apenas um símbolo — era um fardo. O que Ayla carregara desde a noite em que Ymir a jogou nas sombras para salvar a tribo, e ela emergiu das cinzas como líder.
Guti, com a voz grave como o rolar de pedras em avalanche, encarou Kino sob a luz bruxuleante da fogueira:
— Ayla não mandar Kino voltar. Mandar ficar. — Seus olhos, dois carvões acesos, perfuraram a dúvida que restava. — Ayla não segurar lança de Kino naquele dia para salvar Ayla. Segurar para salvar Ioka. Quem Ayla deixar segurar lança agora? — A mão calosa do velho fechou sobre o pulso de Kino, pressionando a cicatriz que ambos sabiam ter vindo de uma garra de reptite. — Kino ser lança de Ayla. Se Ayla não confiar na lança, porque lança quebrar, de quem é a culpa?
" — Kino trair amigos!... Trair Ayla!"
— Ayla líder, Kino — Guti continuou, implacável. — Líder tomar decisão. Ayla não ser menina. Se Ayla tomar decisão, Ioka obedecer. Vive, luta. Perde, morre.
O silêncio que se seguiu foi preenchido pelo estalido do fogo e pelo tilintar do colar da xamã. Kino olhou para a pedra em sua mão, agora manchada de seu próprio sangue, e entendeu: liderar não era sobre força, mas sobre sacrifício. O mesmo sacrifício que Ayla aceitara ao confiar a pedra em Crono, e Ioka em Kino.
"Ayla em pé sobre o campo de batalha, o corpo um totem de guerra. Sangue alheio salpicava sua pele como tinta de rituais esquecidos. Ao seu redor, centenas de reptites mortos — alguns ainda tremendo em espasmos finais, outros perfurados, retorcidos, imóveis. Atrás dela, os sobreviventes de Ioka emergiam das cinzas, crianças agarrando-se às pernas das mães, guerreiros mancos arrastando lanças quebradas. Seus olhos, porém, não estavam na destruição. Estavam nela.
Ayla não sorria. Não gritava. Respirava. Apenas isso — cada inspiração um furacão, cada expiração um terremoto. Seus punhos ainda fumegavam, a carne crua dos nós dos dedos exposta como raízes arrancadas da terra. Nesse silêncio pós-massacre, ela não era humana. Era Ioka feita carne."
Guti retirou a mão da pedra, deixando Kino com o peso de uma verdade:
— Isso ser líder.
Kino olhou para a pedra carmesim. Por um instante, viu-se refletido nela — pequeno, trêmulo, humano. Então, a imagem sobrepôs-se à memória de Ayla sendo arrastada para longe das chamas anos atrás. Desta vez, porém, ele não via uma vítima. Via uma líder.
Ele ergueu-se. O olhar firme, a voz não tremeu:
— Kino respeitar.
A xamã sorriu, revelando dentes ausentes como crateras em um campo de batalha.
— Bom.
Kino atravessou a aldeia como um guerreiro vestido de determinação. O vento secou-lhe o suor frio, substituindo-o pelo cheiro de Ayla que ainda impregnava sua tenda vazia — uma mistura de aroma cítrico, fumaça de fogueira e algo indescritível: o odor de quem ri na cara da morte.
Dentro, a luz da lua entrava por frestas nas peles, iluminando o altar nu. Não havia estátuas, nem oferendas. Apenas um recesso na rocha onde a pedra carmesim repousava. Kino ergueu-a uma última vez, pressionando-a contra o peito até sentir o osso esternum protestar.
— Mas se Ayla gritar... — sussurrou para o vazio.
A pedra voltou ao lugar.
— ...Ioka rugir.
"Lutar forte", sussurrou o fantasma de Ayla em seu ouvido.
O símbolo estava de volta ao seu lugar. O homem não.
Fora, a tribo já se aglomerava. Rostos pintados de urucum pareciam máscaras esculpidas em carne viva. Lanças batiam no chão em cadência de guerra, cada golpe ecoando como o coração de um espírito ancestral. Kino subiu na paliçada, sua silhueta engolindo o crepúsculo vermelho-carmesim.
— VIGIAR NO ALTO! — sua voz bradou diferente.
Os guerreiros bateram lanças. TUM.
— FOGUEIRA QUEIMAR DIA E NOITE! — mais firme.
TUM.
— NENHUM REPTITE PASSAR POR IOKA HOJE! — mais forte.
TUM. TUM. TUM.
O solo tremeu. Nas cabanas, crianças pararam de chorar. Estava decretado o estado de sítio em Ioka.
Kino apertou o cabo de sua lança, onde entalhara runas naquela hora. Não eram palavras. Eram cortes — um para cada vez que duvidara dela. Agora, eram cicatrizes de honra.
— Ayla confiar Kino... — olhava para a floresta escura onde o covil se escondia. — ...e Kino confiar Ayla.
Atrás dele, Ioka respirava em uníssono. Guerreiros escalaram as árvores de vigia, tochas erguidas como estrelas roubadas do céu. Guerreiros afiavam lanças em pedras, o som de rocha contra rocha ecoando como cânticos fúnebres para quem ousasse atravessar os portões de Ioka. À sua frente, a floresta dos reptites. Às suas costas, centenas de olhos brilhavam na escuridão, refletindo as chamas que nunca se apagariam.
De pé na paliçada, sob um céu que sangrava carmesim, ele protegia não a guerreira, mas o chão que ela pisara, o fogo que ela acendera, o povo que aprendera a rugir em sua voz.
A tempestade desabava sobre Ioka. Raios rasgavam o céu em estilhaços de luz branca, e o vento uivava entre as árvores vergando galhos. No meio do caos, duas figuras avançavam pela lama: Guti, encurvado sob seu manto de pele de lobo, e Ayla, arrastando um javali morto do tamanho de um urso. As patas do animal deixavam sulcos profundos no solo encharcado, e o sangue da fera misturava-se à água da chuva, tingindo a terra de vermelho. Ayla não reclamava. Seus músculos tremiam sob a pele molhada, os dedos cravados no casco do javali como garras de ferro. Guti nem olhava para trás.
Quando enfim alcançaram a aldeia, a garota deixou o cadáver escorregar no chão lamacento, próximo à fogueira central já apagada pela chuva. Guti seguiu para sua tenda sem uma palavra, e Ayla cambaleou até a sua, o corpo tão pesado quanto o javali que carregara. Dentro, uma pequena fogueira ainda crepitava. Ela arrancou a túnica encharcada, deixando-a escorrer água no chão de terra batida. Nua, sentou-se diante das chamas, os braços envoltos nos joelhos, os olhos fixos no fogo como se ele guardasse todas as respostas. A água escorria de seus cabelos loiros, pingando no chão em ritmo lento.
— AYLA!
A voz de Kino irrompeu pela entrada da tenda antes mesmo que ele a afastasse. Levemente molhado, os cabelos loiros colados ao rosto anguloso.
— Kino traz...
A frase morreu em seus lábios. Ele congelou, as mãos ainda segurando a pele que servia de porta. Ayla não se virou. Apenas piscou, lentamente, as chamas refletindo-se em seus cansados olhos azuis. Kino engoliu em seco, o rosto incendiando-se de vermelho até as orelhas.
— V-V-VESTIR... AYLA! — gritou, virando-se tão rápido que quase tropeçou. Tapou os olhos com a mão, como se o gesto pudesse apagar a imagem dela da retina.
Ayla abriu a boca. Nada saiu. Nem um suspiro. Seus lábios tremiam de frio.
Guti surgiu então pela entrada, silencioso como uma sombra. Segurava um manto de pele de urso, seco e macio. Olhou para Kino, de costas e mão ainda sobre os olhos, e depois para Ayla, imóvel como uma estátua. Sem uma palavra, estendeu o manto até ela. Ela não reagiu. Guti deixou-o cair em seu colo, virou-se e saiu, desaparecendo na cortina de chuva.
— Já... já vestir? — Kino perguntou, a voz estrangulada.
Silêncio.
Ele esperou dez batidas do próprio coração antes de se virar.
Ela continuava nua.
— AYLA! — ele berrou, cobrindo os olhos novamente, as veias do pescoço saltando. — POR AMOR DOS ESPÍRITOS, VESTIR LOGO!
Ayla olhou para o manto no colo, depois para suas mãos trêmulas. Movimentou os dedos, tentando agarrar o couro, mas seus músculos traíram-na. Um calafrio percorreu-lhe a espinha, fazendo-a encolher-se ainda mais.
Kino ouviu o bater de seus dentes, praguejou baixo, aproximou-se de costas até ficar atrás dela, pegando o manto.
— Ficar quieta — resmungou, envolvendo-a na pele com movimentos bruscos, evitando tocar em qualquer parte dela que não fosse os ombros. Puxou o tecido sobre sua cabeça, libertando os fios loiros que estavam presos sob o manto, e afastou-se rapidamente, como se ela queimasse.
Ayla finalmente se moveu. Puxou o manto até o queixo, os olhos ainda presos às chamas. Kino a observou, o constrangimento dissipando-se como fumaça. Ela parecia menor, ali. Frágil. Algo raro.
— Ayla bem? — perguntou, mais suave.
Ela não respondeu. O fogo crepitou, devorando a lenha úmida.
— Ayla quase morrer última vez que lutar com javali daquel...
— Conseguir — a voz dela saiu rouca.
Kino franziu a testa.
— Kino saber, mas Ayla esperar se…
Ela virou o rosto lentamente.
— Reptites não esperar sol.
Ele abriu a boca para retrucar, mas fechou-a. Sabia que ela tinha razão.
A chuva batia na tenda, preenchendo o silêncio. Kino sentou-se ao seu lado, observando as brasas murchando, a voz suave quebrando o rugido da chuva lá fora:
— Kino fazer fogo quando tempestade começar...
Ayla não se moveu, mas os olhos desviaram-se das chamas para as mãos dele, repousadas no colo.
— ...saber que Ayla voltar molhada. — Ele tentou um sorriso. — Trazer sopa de kiwala... — hesitou, os ombros encolhendo-se num gesto quase imperceptível — ...com chuva, ninguém assar javali.
Ayla continuou calada. Seu rosto, iluminado pelo brilho residual do fogo — belo e intocável. Kino suspirou, começando a se virar.
— Deixar ali, pegar… — mas antes que pudesse se levantar, um peso morno caiu sobre suas pernas. Ayla desabara para o lado, a cabeça repousando em seu colo como uma criança exausta. O manto escorregou, revelando a nuca marcada. Kino congelou, as mãos pairando no ar estáticas.
Um segundo para Ayla. Para Kino, uma eternidade.
Aos poucos, sua mão desceu, tocando o ombro dela — gelado. A aflição de vê-la tão frágil misturou-se a algo mais profundo: um afeto que lhe doeu entre as costelas. Ela nunca precisara de ninguém. Até agora.
Ayla não se mexeu. Seu silêncio era absoluto, talhado em anos de sobrevivência onde palavras eram luxo perigoso. Kino conhecia aquele silêncio. Vira-o quando ela chegara a Ioka, anos atrás, uma criança selvagem de rudes olhos azuis.
— Ayla... comer — repetiu ele, num sussurro.
Ela não respondeu. Seus dedos, porém, cerraram-se levemente no tecido do manto. Kino não se levantou.
O ensopado poderia esperar.
Deslizou a mão com cuidado do braço dela até o ombro, os dedos calejados traçando o contorno de uma cicatriz em forma de corte — marca de uma garra de reptite. "Ayla ser forte o tempo todo.", pensou. Ayla nunca chorava. Nunca pedia. Nunca precisava. Mas ali, naquela quietude, Kino via as rachaduras: nos leves espasmos pelo frio, nas mãos ainda crispadas de tanto arrastar o javali, no modo como seu corpo se encolhera sob o manto. Com ela inerte em seu colo, ele via a verdade: sua força não era ausência de medo. Era ter medo, e seguir mesmo assim. Kino não tinha a força de Ayla, mas tinha força para sustentá-la, tinha força para segurar alguém que nunca podia desabar.
A chuva diminuíra para um sussurro, os últimos fios de consciência de Ayla teciam uma memória antiga: uma menina encolhida sob uma rocha, mastigando folhas enquanto o vento cortante assobiava entre as árvores. Nenhum fogo a esperava. Nenhuma voz a chamava. Apenas o frio, companheiro fiel de toda caçada fracassada. Agora, porém, mesmo exausta, ela sentia o calor do fogo, a maciez do manto, o peso da fadiga apoiado em alguém, o cheiro de fumaça e terra úmida que permeava a tenda. Ela ainda não conhecia a palavra, mas sabia o que sentia.
Gratidão.
Gratidão por ter alguém que acendera o fogo para ela. Gratidão por alguém lhe dar vestes secas. Gratidão por alguém lhe trazer o que comer. Gratidão por, no fim da prova, não estar só. Um reconhecimento de que a solidão, aquela velha inimiga, retrocedera um passo.
Ayla moveu os lábios, sem som:
"Obrigada."
Kino não a ouviu, mas sentiu. No arrepio que percorreu seu corpo ao tocar uma cicatriz em seu couro cabeludo. No modo como ela inclinou-se para seu calor. Foi então que Ayla finalmente cedeu ao sono, vencida pela exaustão. Kino ficou imóvel, como se qualquer movimento quebrasse o feitiço.
Com a mão pousada em seu cabelo loiro — úmido, embaraçado, dourado como fogo, Kino via além da guerreira implacável. Via a menina que confundira sobrevivência com viver. Ayla carregava marcas de batalhas no corpo, mas as mais profundas estavam na alma.
Guti a moldava para enfrentar o mundo, suas lições não vinham em conselhos, mas em provações, ensinava a Ayla, na linguagem que ela conhecia, Ayla aprendera a engolir o grito, a morder a dor, a lutar antes de brincar, a sobreviver antes de viver. Na dor, no sacrifício, no esforço, no silêncio. Kino entendia, finalmente, o que o velho jamais dissera em voz alta: ser invencível não é o mesmo que ser vencedor. A força de Ayla era uma armadura cravada na carne, e cada prego que a mantinha erguida também a sangrava por dentro. Ela conhecia o gosto da fome, o frio hálito da morte, a melancólica solidão... Mas o que sabia do calor que derrete a geleira no peito? Do alívio de repousar a cabeça em um colo carinhoso? Da gentileza que nasce quando alguém sussurra "eu estou aqui"? Ayla não aprendera receber. Ceder.
Ayla não conhecia amor.
"Você não é forte por não precisar de ninguém, você é forte porque, um dia, alguém vai precisar de você."
Guti lhe ensinara a não quebrar.
Kino mostrava-lhe como se dobrar.
A chuva lá fora já era um sussurro, e o fogo reduzira-se a brasas trêmulas. Seus dedos, ainda repousados no braço dela, sentiram a textura irregular de cicatrizes sob a pele — sulcos de batalhas que ela nunca contara. Entre as mechas loiras que cobriam seu rosto, uma faixa pálida e retorcida aparecia: o fim da queimadura que serpenteava suas costas. Kino conhecia a história. Os guerreiros em Ioka conheciam. "A marca do fogo que receber Ayla no mundo", dissera a xamã.
— Ayla... — sussurrou, mais para si mesmo.
Ela moveu-se levemente, um suspiro escapando de seus lábios. Kino parou, temendo tê-la acordado. Mas Ayla apenas ajustou a cabeça em seu colo, os dedos ainda entrelaçados ao manto.
Ele inclinou-se para trás, apoiando a cabeça na parede de couro da tenda, e observou-a. O rosto de Ayla, livre da ferocidade habitual, parecia frágil, quase ingênuo. Lembrou-se do dia em que ela chegara a Ioka, nos braços de Guti: uma criança magra, com olhos de fera acuada, que rosnava até para quem lhe oferecia água. Agora, aquela mesma fera repousava em seu colo.
Kino adormeceu sem perceber, vencido pelo calor do fogo e pelo peso aconchegante de Ayla em seu colo. Seus sonhos o levaram a uma planície de neve, onde seus pés pequenos afundavam em botas de pele, duas vezes maiores que ele. A neve cintilava sob um sol pálido, e ele ria, brincando com flocos que vinham com o vento. Seus passos eram leves enquanto uma mão cálida envolvia a sua com carinho. Olhou para o lado, esperando encontrar rostos amados, mas viu apenas uma silhueta envolta na névoa serena da nevasca.
— Kino…
A voz chegou como um sopro, derretendo-se no ar. Diante dele, lentamente, uma mulher agachou-se, seus cabelos esvoaçando. Seu rosto surgiu gradualmente — uma aurora em meio ao branco —, de olhos fechados, com um sorriso que aquecia mais que o fogo. Seus lábios moveram-se em câmera lenta, desenhando letras que o vento levou. Kino inclinou-se, curioso, até decifrar o nome que nascia daquela boca silenciosa:
— A… Y… L… A…
— Ayla? — Ele tentou chamá-la, mas o ar gelado petrificou as palavras em sua garganta, transformando-as em vapor. A mulher riu, um som angelical, e estendeu as mãos para lhe abraçar, quando, da névoa gelada, uma rajada de fogo irrompeu, um rugido bestial explodiu nos céus, rachando o mundo ao meio, chamas violentas acertaram a mulher. Seus olhos alargaram-se, perdendo a luz — agora duas luas negras em um rosto que se desmanchava. A pele dela borbulhou, escorrendo em fios fumegantes que pingavam no chão como metal fundido. A boca aberta em agonia cuspiu labaredas, enquanto o fogo a torcia. Ossos crepitavam, retorcidos sob a carne que se desprendia em lascas carbonizadas. Kino tentou correr, mas as botas colaram-se ao solo. A mão que antes o confortava arranhou a neve em frenesi, como se tentasse correr, até reduzir-se a uma garra negra imóvel.
— NÃO! NÃO! NÃO!
O cheiro de carne queimada invadiu suas narinas. A mulher queimada começou a cair na sua direção de braços abertos em um bizarro abraço da morte enquanto o vento uivava o nome dela como uma maldição:
— AYLA! — Kino acordou aos berros, o corpo debatendo-se como um animal encurralado. Seu punho fechado golpeou algo macio — um gemido abafado cortou o ar. Ele abriu os olhos, ofegante, e viu Ayla de quatro diante dele, uma mão pressionando a têmpora onde ele a atingira. Seus olhos azuis fitavam-no com uma mistura de alerta e confusão.
— Kino? — a voz dela era rouca, mas preocupada.
Ele engoliu ar, as mãos tremendo. O eco do pesadelo ainda lhe assombrava a retina — o cheiro de carne queimada, o brilho dourado do fogo devorando a mulher desconhecida. Ou não tão desconhecida assim.
— Ayla… ah… — a voz falhou.
Ayla aproximou-se, ainda envolta no manto, e sentou-se frente a ele. A luz fraca da madrugada entrava por frestas na tenda, iluminando seu rosto.
— Kino bem? — perguntou, com uma nuance que ele nunca ouvira antes: preocupação genuína.
Ele fez que sim com a cabeça, encostando-se na parede de palha úmida. As mãos ainda trêmulas.
— Ser só… sonho. Ruim.
Ela inclinou a cabeça, estudando-o como faria com uma pegada desconhecida na floresta. Não o pressionou.
O silêncio pairou, carregado do restante da tempestade que agora caía lá fora. Ayla ergueu a mão devagar, e tocou o rosto dele, onde uma gota de suor escorreu pela bochecha sem que ele percebesse. Ou seria lágrima? Kino a olhou, não recuou.
— Ayla… — ele começou, sem saber o que dizer. “Desculpe. Você está cansada.”
— Kino dormir — ordenou Ayla, apontando para o chão onde estivera deitada. Ela arrastou-se para o lado, abrindo espaço. Kino hesitou, mas ela já se deitara de lado, os olhos fixos nele como se a posição fosse a coisa mais natural do mundo.
Kino deitou-se ao lado dela, rígido como uma tábua, as mãos cruzadas sobre o peito. A fogueira morrera, e o frio da madrugada infiltrava-se pelas frestas, fazendo seus pelos eriçarem. Ayla moveu-se abruptamente. Antes que Kino pudesse reagir, ela jogou meio corpo sobre ele, a cabeça encaixando-se no espaço entre seu ombro e pescoço, a perna disposta sobre suas coxas. Ele soltou um grunhido abafado, o ar escapando-lhe dos pulmões sob o peso dela.
— Frio… — murmurou ela, como explicação única, esfregando o rosto contra o tecido fino de sua túnica.
Kino ficou paralisado. Ayla sempre fora espontânea, mas não eram mais crianças. Seu coração acelerou, misturando-se ao ritmo calmo da respiração dela. Aos poucos, porém, o calor do corpo dela e da sua túnica felpuda começaram a dissipar o gelo que o pesadelo deixara em suas veias. A mão dele, inicialmente suspensa no ar perdida, desceu lentamente até repousar em suas costas.
— Ayla… esmagar costela — ele disse, quase sem ar.
Ayla não respondeu. Apenas ajustou-se, encaixando-se melhor contra ele, o nariz pressionado em seu clavículo. Kino soltou um suspiro que não sabia estar guardando. O medo do sonho derretia como neve ao sol, substituído pela presença dela — sólida, viva, quente. Ela não era mais a criança selvagem que Guti trouxera para Ioka. Nem ele o garoto que temia ser fraco demais. Ali, naquela tenda fria, eram apenas dois corpos aprendendo que calor mútuo não era fraqueza.
Ayla dormiu primeiro, seu sopro quente marcando ritmo contra seu pescoço. Kino ficou acordado, ouvindo a chuva distante transformar-se em orvalho. Seus olhos lentamente se acostumavam à escuridão, discernindo o contorno do teto cônico da tenda, onde as sombras dançavam ao sabor da brisa noturna. A chuva, agora fina, batia levemente no couro enrijecido da estrutura, tamborilando uma canção de ninar. Por um instante, uma luz alaranjada deslizou pela parede de palha úmida — a chama de uma tocha carregada por um guerreiro em patrulha. A silhueta do homem projetou-se fugazmente, alongada e imponente, antes de desaparecer junto com o clarão, engolido pela noite. Kino seguiu o rastro da luz com o olhar até ela sumir, deixando para trás apenas o cheiro de fumaça resinosa que invadia a tenda pelas frestas.
Seu olhar desceu então para Ayla, cujo corpo repousava sobre o dele. O manto de pele moldava-se às curvas dela sob o peso do cabelo loiro que se espalhava como raízes douradas. O sopro quente dela contra sua clavícula era um metrônomo vivo, sincronizado com a suave elevação de seu torso — um movimento quase imperceptível, mas que Kino acompanhava como se fosse a única prova de que o mundo ainda girava.
Era estranho, pensou ele, como aquela mesma respiração calma pertencia à mulher que, horas antes, derrotara um enorme javali selvagem. Parecia feita de areia, frágil, como se o menor movimento a pudesse despedaçar. Ayla mexeu-se de repente, um gemido rouco escapando de seus lábios entreabertos. Ela enterrou o rosto mais fundo em seu ombro, os dedos contraindo levemente o tecido de sua túnica. Ele rearranjou o próprio braço, que estava em uma posição desconfortável, puxando-a para mais perto. Ela emitiu um grunhido de protesto, breve e abafado, seguido por um suspiro que dissolveu qualquer resistência. Kino riu baixo, o som ecoando em seu próprio peito.
"Até dormindo, Ayla brigar", pensou, observando como seus cílios dourados tremiam levemente, presos em algum sonho desconhecido.
Aos poucos, a tensão em seus músculos dissolveu-se, substituída por uma languidez pesada. A chuva lá fora já não era mais que um sussurro, e o mundo parecia reduzir-se ao ritmo da respiração dela, ao peso aconchegante de seu corpo, ao cheiro de terra molhada e ervas amargas que a envolvia. Quando o sono finalmente o arrastou, não houve neve nem fogo em seus sonhos. Apenas silêncio.
Kino despertou devagar, como se emergisse de um abismo. Por um instante, sua mente foi um branco existencial, até que os detalhes se recomporam: a luz matinal filtrando pela tenda, o cheiro cítrico do óleo de Ayla impregnado no manto, o espaço vazio ao seu lado ainda morno. A tigela de ensopado, agora vazia, brilhava sob um raio de sol que escapava pela entrada.
Ele saiu da tenda, esfregando os olhos contra a claridade. O javali jazia no centro da aldeia, já esfolado e repartido em partes por mulheres que trabalhavam em ânimo. Algumas crianças observavam, fascinadas pelo tamanho da presa, um troféu, de fato.
Ayla não estava entre os guerreiros que afiavam lanças, nem entre as crianças que riam ao redor das fogueiras reacesas. Kino seguiu para trás da aldeia, onde juncos altos escondiam o lago. A terra encharcada afundava em seus pés descalços, e o sol já escaldava sua nuca, prometendo um dia abrasador.
O lago estava quieto, a superfície espelhando o céu em tons de âmbar e azul. Ninguém ali. Kino arrancou a túnica de couro, deixando-a cair na margem, e entrou na água. O frio cortante fez-lhe prender a respiração, mas ele mergulhou de uma vez.
Submerso, o mundo tornou-se silêncio puro. A pressão da água envolvia-o como um abraço pesado, e por um momento, tudo foi simples: a luz dançando em fractais acima dele, a areia fria sob seus pés, o eco da água em seus ouvidos.
Kino emergiu do mergulho, a água escorrendo de seus cabelos loiros, e ergueu o rosto para o sol. Foi então que a viu, no alto de uma árvore frondosa à margem do lago, Ayla estava sentada em um galho, pernas cruzadas, mordiscando uma fruta dourada. Seus olhos azuis brilhavam como o lago sob a luz do amanhecer, fixos nele. Ela tirou a fruta da boca, mastigando lentamente, e sorriu — um gesto que sempre precedia caos.
— Ayla não saber que Kino tomar banho. — provocou com o sorriso de quem preparava uma armadilha.
Kino virou-se de costas, fingindo ignorá-la, e mergulhou as mãos na água para lavar o rosto. Um "tsch" irônico ecoou atrás dele, seguido por um estalo no ar. Antes que pudesse reagir, uma manga acertou seu crânio com um baque surdo, ricocheteando para cima.
— A…! — virou-se, pronto para brigar, mas o galho já estava vazio.
Ayla despencou da árvore como uma pedra, mergulhando no lago com um impacto que levantou uma cortina de água. Kino ergueu os braços instintivamente, segurando a fruta que caía de volta. Quando a água se acalmou, ela emergiu a centímetros de seu rosto, gotas escorrendo por seus cílios loiros, o sorriso tão largo que quase escondia a malícia.
— Essa ser por ontem. — disse, apontando para a sua própria têmpora.
Kino recuou, quase tropeçando na água rasa. Lembrou que a tinha acertado involuntariamente enquanto se debatia no pesadelo. Lembrava dele… a mulher derretendo em chamas, o nome de Ayla sendo sussurrado. Kino paralisou.
Ayla inclinou a cabeça, o sorriso desaparecendo. Seus olhos estreitaram, analisando-o.
— Kino? — chamou, a voz mais suave agora.
Ele piscou, sacudindo a cabeça.
— Ah! Desculpar… por acertar Ayla.
Ela deu de ombros, o sorriso voltando, mas sem a ferocidade de antes.
— Fraco — zombou, mas havia um brilho diferente em seus olhos.
Antes que ele pudesse retrucar, ela foi para a margem, saindo da água em um movimento fluido, sacudindo os cabelos loiros como um kilwala molhado. Na margem, parou por um instante, virando-se para ele. A luz do sol matinal desenhou seu perfil em ouro.
— Ensa… — começou, engasgando na palavra. Ensopado? Ensolarado? Ensinamento?
Franziu a testa, irritada consigo mesma, e desapareceu entre os juncos antes que ele pudesse decifrar.
Kino ergueu uma sobrancelha, sozinho no lago, a manga ainda apertada em sua mão. Mastigou um pedaço, o doce e cremoso sabor explodindo em sua língua, e mergulhou novamente, deixando a água envolver seu corpo. Nadou até o fundo, onde a luz do sol se dissolvia em tons de verde-escuro, e ali ficou por um momento, até os pulmões arderem. Na superfície, boiou de costas, deixando que a correnteza o levasse lentamente em direção à margem. O céu estava imaculado, um azul infinito, uma tela vazia, perfeita para projetar suas confusões: o pesadelo da mulher em chamas, a imagem de Ayla — rindo, mergulhando, dormindo sobre ele — girava em sua cabeça como folhas ao vento.. Tentou imaginar tudo como norma, mas algo se recusava a se encaixar.
Foi então que uma sombra cobriu seu rosto.
— Wah!
Ele se debateu na água, quase engasgando. A xamã estava de pé na beira do lago, o rosto enrugado inclinado sobre ele como um corvo observando uma presa. Seus olhos, dois poços de breu, encaravam-no com seriedade e um pouco de ironia.
— Moira — cumprimentou, tentando disfarçar o susto. — Kino… não saber que xamã vir aqui.
Ela ergueu uma sobrancelha, os dedos entrelaçados sobre o cajado entalhado com runas.
— Não vir — respondeu ela. — Mas manhã trazer vontade.
Kino assentiu, sem saber o que mais dizer.
— Ah… entender.
Kino limpou o rosto, sem graça. A Xamã sentou-se na pedra próxima, os ossos rangendo, e fitou-o em silêncio. O olhar dela era um furo negro, parecia sugar sua alma.
— Problema? — perguntou, abrupta.
— Problema? Não, ah…
— Mentira.
Kino engoliu seco. A xamã não perguntava — ordenava verdades. A água gelada parecia subir por suas veias. Um silêncio pesado desceu entre eles, quebrado apenas pelo canto distante de um pássaro.
— Ser só sonho ruim — encolheu os ombros, evitando seu olhar.
Ela grunhiu em resposta. Kino encolheu-se. A xamã parecia saber ler mentes — ou quase isso. Ela desviou o olhar para o outro lado do lago, onde a mangueira ainda balançava levemente.
— Sonho ser visão que olho não ver, Kino — disse ela, ainda observando a mangueira.
Kino franziu a testa, tentando decifrar o significado por trás das palavras. A xamã continuou, apontando para a árvore:
— Árvore já ser semente, olhar e ver árvore. Mas quando semente, olhar e ver semente, não árvore. E agora? — Ela virou-se para ele, os olhos indagavam-no. — O que Kino ver quando olhar árvore?
Kino obedeceu, os olhos fixando-se na copa verdejante. Por um instante, a imagem de Ayla reapareceu em seus pensamentos — sentada no galho, sorrindo maliciosamente, a fruta dourada em sua mão.
— Kino ver árvore — respondeu por fim, desviando o olhar para a água.
— Mentira. — Ela inclinou-se para frente, o colar de ossos tilintando. — Kino ver outra coisa.
Kino engoliu em seco. O lago parecia ter ficado mais frio.
A xamã soltou um som baixo, entre riso e reprovação.
— Entender Kino? Semente não ser só semente, sonho não ser só sonho.
— Mas… que ter haver com…
— Tudo — interrompeu a xamã, erguendo-se com um gemido. — Semente guardar árvore, mesmo Kino não ver. Sonho guardar verdade, mesmo Kino não entender.
Antes que Kino pudesse responder, ela já se afastava com passos lentos e deliberados, seu cajado batendo suavemente no chão úmido. Ele ficou ali, parado na água, observando sua figura desaparecer entre as árvores.
Quando se deu conta, o sol já estava mais alto, e o lago parecia mais frio do que antes. Kino nadou de volta para a margem oposta, onde suas vestes ainda estavam secando sobre os juncos. Vestiu-se lentamente, os pensamentos girando em sua mente como folhas ao vento.
Ele suspirou, amarrando o cinto de couro com mais força que o necessário. O dia mal começara, e já prometia ser longo.
Kino caminhava de volta à aldeia, o cheiro defumado da carne assada envolvendo-o como um convite irrecusável. O javali de Ayla assava lentamente sobre as brasas, sua pele já dourada e estaladiça, enquanto mulheres e crianças esfregavam ervas aromáticas sobre a superfície. Seu estômago roncou, mas seus olhos foram capturados por um movimento à distância: uma garota de olhos âmbar, de pele morena e cabelos negros, observava-o fixamente. As duas amigas ao seu lado sussurravam entre risos, mas ela permanecia imóvel, o olhar penetrante como uma lança.
Ele desviou os olhos, acelerando o passo, mas tropeçou na entrada de sua tenda, caindo de joelhos no chão de terra. Uma risada aguda ecoou do lado de fora — uma criança que brincava com um arco de gravetos vira a cena, e gargalhava. Kino praguejou baixo, levantando-se rápido demais e esbarrando na parede da tenda.
— Acordar Kino… — resmungou, esfregando o rosto.
Do lado de fora, a risada continuou.
[...]
— Laruba? — repetiu Ayla, cruzando os braços. Guti estava sentado em seu cepo de madeira, esculpindo uma lança com uma faca de ossos.
— Sim. Encontrar velho amigo. Saber coisas. — O velho não ergueu os olhos.
— Coisas?
— Coisas.
Ela revirou os olhos. Guti sempre falava em enigmas, como se cada palavra custasse ouro.
— Levar Ayla e Kino.
— Kino?
— Kino.
— Por quê?
Desta vez, ele ergueu o olhar, os sulcos do rosto aprofundando-se em um sorriso sardônico.
— Kino aprender. Ayla também.
Ela bufou, mas acenou com a cabeça.
— Partir noite. Reptites dormir. — Ele apontou a faca para ela — Não caçar hoje. Guardar força.
Ayla riu, seca.
— Ayla sempre ter força.
— Ayla sempre teimosa — ele retrucou, voltando a esculpir. — Ayla chamar Kino quando ver.
Ayla saiu da tenda de Guti como uma tempestade loira, os passos rápidos e leves. Ao passar pela fogueira central, onde o javali dourado girava sobre as brasas, seu estômago roncou alto o suficiente para rivalizar com o crepitar das chamas. O aroma de gordura derretida e alecrim selvagem encheu suas narinas, e por um instante, hesitou. A carne estava perfeita — crocante por fora, suculenta por dentro. Uma guerreira ao lado já cortava uma lasca, e o suor escorrendo pela casca dourada fez Ayla engolir em seco.
— Depois… — murmurou para si mesma, os olhos estreitando-se em decisão.
Ela se lançou em direção à tenda de Kino, desviando de crianças que brincavam e guerreiros que carregavam odres de bebida. Seu corpo fluía entre os obstáculos como água em um riacho, os músculos memorizando cada curva do caminho. Em segundos, estava diante da entrada de couro de sua cabana.
— KINO! — invadiu o espaço sem cerimônia, esperando vê-lo afiando armas ou amarrando botas.
Nada.
A tenda estava vazia, só o cheiro de citronela queimada e um rastro de terra molhada no chão. Ayla franziu o nariz, irritada. Olhou para trás, em direção à fogueira. O javali estaria pronto em minutos.
— Ah Kino...— resmungou
Ela voltou à fogueira, sentando-se bruscamente ao lado dos guerreiros da tribo, o chefe, Taurik, um homem de ombros largos e cicatrizes que contornavam seus braços como serpentes, ergueu uma faca de pedra lascada, cravejada de dentes de reptite, e cortou o pedaço mais suculento do javali — a barriga —, estendendo-o a ela em uma tigela de madeira entalhada.
— Ayla trazer grande caça para Ioka! — declarou, sua voz ecoando como um trovão.
O grito de "AYLA!" ecoou, os guerreiros bateram os pés no chão em ritmo, e Ayla ergueu o naco com um sorriso feroz.
— Onde estar seu sombra? — perguntou Taurik, referindo-se a Kino com o apelido que ele lhe dera.
— Perdido — respondeu Ayla, mastigando o pedaço de carne.
Taurik riu. Kino era respeitado, mas ele sabia que, ao lado de Ayla, os mais novos sempre pareciam um passo atrás — a diferença era que Ayla e Kino sempre estavam juntos.
Seus olhos varriam a multidão entre uma mastigada e outra. Nada de Kino. Nenhum cabelo loiro desgrenhado, nenhuma risada tímida, nenhum olhar fugidio.
— Kino? — perguntou a um guerreiro ao lado, engolindo sem cerimônia.
— Não ver — respondeu ele, lambendo os dedos.
Seus ouvidos capturavam fragmentos de conversas — "Falar que lutar com reptite no caminho", "Onde Mika estar? Não comer?" — mas nenhum sinal dele.
— Kino — perguntou abruptamente a outro guerreiro perto, um homem de cicatrizes em forma de serpente no braço. — Ver ele?
O homem encolheu os ombros, cuspindo um osso no fogo.
Ayla esmagou os ossos de sua própria porção entre os dentes, o sabor suculento perdendo a graça, ela queria que todos provassem da sua caça, incluindo Kino, se ele aparecesse.
Ele não apareceu.
Ela devorou o resto da carne e ergueu-se com um movimento fluido. Na fogueira, arrancou um naco suculento da lombar do javali — a parte mais macia, envolta em gordura dourada — e embalou-o em folhas largas.
— Ayla já ir? — zombou o chefe, erguendo outra cabaça.
— Caçar perdido — respondeu ela, desaparecendo antes que alguém replicasse.
Ayla segurava o naco de carne envolto em folhas de bananeira, o osso saliente servindo de cabo improvisado. O sol do meio-dia desenhava sombras curtas no chão, e o cheiro defumado da carne quase a fazia parar para devorar o pedaço ali mesmo. "Lago?" Pensou. "Se Kino afogar, rir até o sol nascer."
As risadas da tribo ecoavam atrás dela, distantes agora. Ao entrar na trilha estreita que levava ao lago, duas garotas escondidas entre os juncos viraram-se de repente, os olhos brilhando de travessura. Reconheceu-as — filhas de um guerreiro mediano, sempre à espreita de fofocas. Ayla passou por elas, ignorando os olhares maliciosos e os sorrisos de quem sabia algo que ela não sabia.
Ayla apertou os maxilares e seguiu em frente. Chegou à margem do lago e parou. Vazio. O sol refletia na água como mil facas cravadas em seus olhos. Virou-se para a mangueira, onde horas antes zombara de Kino.
E então viu.
Debaixo da copa verdejante, Kino estava de costas para ela, os ombros tensos. À sua frente, Mika.
Ayla parou, reconhecendo-a imediatamente: mechas adornadas com flores de urucum, pele cor de noz, olhos âmbar que brilhavam como os de uma onça. A mesma Mika que, anos atrás, apontara para as cicatrizes de Ayla e rira: "Parecer casca de árvore queimada!". Agora, porém, Mika não ria, estava de pé diante de Kino, ao ver Ayla chegar, fitou-a por cima de seu ombro, somente um olho visível por causa da proximidade dos dois. Kino inclinava-se levemente, ouvindo algo que Mika sussurrava. Ayla não ouvia as palavras, mas via os olhos de Mika deslizando dela para Kino, um sorriso lento se formando em seus lábios pintados de vermelho, enquanto os dedos dela subiam até o peito de Kino, ajustando um colar de dentes de lobo que ele nem usava.
Kino murmurou algo inaudível, a cabeça baixa.
Mika soltou-o então, dando um passo para trás. Seu olho manteve-se em Ayla até o último instante, desafiador, antes que ela se virasse completamente para Kino.
— …obrigada por escutar, Kino — a voz de Mika era melífera, carregada de uma doçura que Ayla achava instintivamente repugnante.
— Até mais, Kino — disse Mika, abraçando-o abruptamente. Seu rosto escondeu-se no ombro dele por um instante, tempo suficiente para lançar um último olhar triunfante a Ayla.
Ao se afastar, Mika ia na direção de Ayla como se ela fosse invisível.
Kino virou-se, e o ar pareceu sair de seus pulmões ao ver Ayla parada a dez passos de distância, o rosto impassível como pedra.
Mika passou por ela sem um cumprimento, sem um piscar de olhos. O cheiro doce de jasmim que ela carregava misturou-se ao aroma de carne defumada.
Ayla não se moveu. Não desviou o olhar. Mas dentro dela, algo antigo e negro se agitou — a memória de crianças rindo, de noites escondida atrás de árvores arranhando vergonha. A carne em sua mão escorregou um pouco, manchando a folha de gordura.
— Ayla! Eu…
— Guti chamar — cortou Ayla, jogando o naco de carne na direção de Kino. — Partir Laruba quando pôr do sol. Kino sumir de novo, Ayla caçar Kino como caçar reptite.
Kino olhou para a carne, depois para ela.
— Kino só… Mika perguntar Kino…
— Não importar — mentiu Ayla, virando-se. — Só vir procurar.
— Espera, Ayla.
Ele agarrou seu braço antes que ela pudesse ir embora.
Ela olhou para sua mão, depois para seu rosto. Kino nunca a tocara assim — com urgência, quase desespero.
— Não importar — repetiu, mais suave — Agora soltar. — era um aviso.
Kino afastou a mão como se tivesse tocado brasa.
— Desculpa. Não… não querer fazer isso…
Ayla deu de ombros, como se o toque dele fosse insignificante, mas o pulso ainda latejava onde ele a segurara.
— Guti esperar. Ir agora.
Virou-se antes que ele pudesse ver o rubor subir de seu pescoço às orelhas. Seus passos eram firmes, mas o coração batia em ritmo de guerra. "Fraqueza é morte".
Kino tentou chamá-la, mas o nome dela travou em sua garganta. "Ayla…" virou-se para o nada, engolindo a frustração.
Desembrulhou a carne que ela jogara em suas mãos. A lombar do javali — macia, suculenta, banhada em gordura dourada e mel selvagem. Seu estômago revirou. Era sua parte favorita, e Ayla sabia. Sempre deixava para ele, mesmo fingindo que era acaso.
— Por que Kino fazer isso? — sussurrou para o vazio, como se a floresta pudesse responder.
A imagem de Mika abraçando-o voltou à mente. Seus dedos sujos de mel tremiam. "Não pedir isso", pensou, mas o peso da culpa era mais denso que o aroma da carne. Mika rira de Ayla. Zombara de suas cicatrizes. E agora, ali, sob a mangueira, ele permitira que ela se aproximasse como se nada fosse.
Mordeu a carne com força, o suco escorrendo pelo queixo. Estava perfeita, defumada, temperada com folhas de louro-cinza, mas cada mastigada tinha gosto de cinzas.
Ele terminou a carne, limpando as mãos na grama. O sol reinava o início da tarde, o lago refletia-o, como o céu na terra. Guti esperava. Laruba esperava. E Ayla.
Enquanto isso, Ayla parou no início da trilha, olhando para o pulso onde ele a segurara. A marca de seus dedos ainda estava lá, vermelha e quente.
— Idiota — rosnou, não sabendo ao certo se falava de Kino ou de si mesma.
O olhar dele quando ela partira martelava em sua mente: uma mistura de culpa e algo que ela não ousava nomear. "Agir certo?" Ela não sabia. Mika estava lá, mas Kino não fizera nada além de ouvir.
Ela suspirou, lembrando-se da noite em que Kino a encontrara atrás dos juncos, anos atrás. Cicatrizes sangrando, unhas sujas de terra, tentando arrancar a própria pele como se fosse um casaco maldito. "Feia... Casca de árvore queimada..." As palavras de Mika ecoavam, mas o que a queimava agora não era a zombaria — era o medo de que Kino, em sua gentileza desastrada, cedesse àquela mesma crueldade.
Mas Kino nunca fora cruel. Sempre trouxera raízes doces depois das caçadas, consertara suas armas sem ser pedido, rira de suas graças brutas com alegria genuína. "Por que importar?" Ayla cerrou os punhos. "Por que Ayla importar?"
Um estalo de galho a fez girar. Kino estava ali, parado na trilha, o rosto iluminado pelo sol que filtravam as folhas. Seus olhos se encontraram, e por um instante, ela viu nele a mesma hesitação que sentia.
— Guti — disse ela, antes que ele abrisse a boca, apontando para o caminho da aldeia.
Ele assentiu, engolindo as palavras, e caminhou até seu lado. Ayla manteve os olhos à frente, mas notou o canto da boca dele manchado de gordura do javali. Um sorriso quase brotou em seus lábios — "Comilão" —, mas ela o engoliu, transformando-o num leve brilho nos olhos que só ela sentiu. Sentiu o calor do dia novamente enquanto caminhavam em silêncio, o ar entre eles carregado. Seu olhar deslizou para o perfil dele: o queixo mais angular, os ombros mais largos, ele era mais novo, porém alcançara sua altura. "Crescer forte", pensou, involuntariamente. "E bonito."
Lembrou-se do garoto que tentara cortejá-la tempos atrás — um rapaz ágil, de sorriso fácil, que lhe trouxera flores de jasmim. Ayla não entendera o gesto. "Quer provar força?" perguntara, confusa. O garoto fugira ruborizado, e ela nunca mais o viu, não intencionalmente. Agora, olhando para Kino, perguntou-se, ele algum dia tentaria algo assim? E se tentasse…
Um grito rompeu o silêncio.
— AYLA! — Taurik erguia um odre de bebida, o rosto já corado pela bebida. — Finalmente achar sombra!
Um guerreiro mais jovem arremessou um pedaço de carne para Kino, que o pegou no ar com um aceno de agradecimento. Ayla respondeu a Taurik com um meio-sorriso, forçado, enquanto o chefe da tribo observava os dois com um olhar astuto.
— Quietos como xisto — zombou Taurik, erguendo uma sobrancelha. — Problema de casal?
— Problema de velho bêbado — retrucou Ayla, seca, fazendo os guerreiros em volta rirem.
Taurik gargalhou, virando-se para o grupo, já distraído. Ayla aproveitou para seguir em frente, Kino, ao seu lado, mordiscava a carne sem entusiasmo.
Os passos de Ayla e Kino ecoaram em silêncio até a tenda de Guti, onde o ancião mastigava um pedaço de carne com calma ritualística, a lança de guerra cravada no chão ao seu lado como um totem de autoridade. A fumaça de ervas amargas enchia o ar, misturando-se ao cheiro de carne defumada. Ayla sentou-se à esquerda de Guti, os braços cruzados, enquanto Kino ocupou o lado oposto, ainda roendo a costela de javali com um apetite que não alcançava os olhos.
Guti observou-os por sobre a tigela, os olhos estreitos captando cada detalhe: a postura rígida de Ayla, a mastigação lenta de Kino, o espaço frio entre eles.
— Boa né, Kino? — perguntou o ancião, apontando para a carne com o osso em sua mão.
Kino assentiu, engolindo rápido demais.
— Sim. Bom javali.
Ayla fez um bico quase imperceptível, os olhos fixos na fogueira central da tenda. O elogio a irritou, não por falsidade, mas por ser verdade. Além de tirar a melhor parte para ele mais cedo, mesmo fingindo que era acaso.
Guti sorriu por dentro. Jovens. Sempre achando que escondiam segredos em silêncios.
— Precisar de algo? — Ayla levantou-se abruptamente, as mãos sujas de cinzas. — Ayla quer descansar.
— Vá — Guti acenou, os olhos seguindo-a enquanto ela saía como uma tempestade contida.
O silêncio que restou foi cortado pelo estalar da gordura na fogueira.
— Que haver com ela? — Guti perguntou a Kino, fingindo interesse casual enquanto lambia mel da faca de osso.
— Ela me ver com Mika. No lago.
— Ah. Mika. — O nome saiu carregado de significado, como se Guti conhecesse cada fiapo da história não contada.
— Kino achar que… Ayla não gostar Mika.
— Hum! — Guti mordeu outro pedaço de carne, o suco escorrendo por sua barba grisalha. — E Kino gostar?
— Não! — a resposta saiu mais alta que o pretendido. — Mika só… perguntar coisa.
Guti riu, um som rouco que mais parecia o rosnar de um urso velho.
— Coisa. — repetiu, como se a palavra fosse uma piada. — Bom, partir Laruba de noite. Descansar. Noite ser longa.
Kino acenou e saiu logo em seguida, mas não foi direto para sua tenda. Parou na entrada da cabana de Ayla, a pele da porta entreaberta. Ela estava deitada de costas, os braços cruzados sob a cabeça, os olhos fechados. Por um momento, ouviu apenas o silêncio — ou talvez a respiração leve dela, se é que dormia. "Melhor não", pensou, recuando.
Ayla abriu os olhos assim que seus passos se afastaram. Encostou a mão no pulso, onde a marca de seus dedos já desaparecera, mas a memória do toque permanecia. "Idiota," pensou novamente, sem saber se o insulto era para ele, para Mika, ou para seu próprio coração teimoso.
Ayla adormeceu sem perceber, vencida pela sonolência pós-refeição e pelo calor residual da fogueira. Quando despertou, a escuridão já envolvia a aldeia, pontilhada apenas pelo brilho fraco das estrelas engolidas por nuvens espessas. Ela levantou-se num impulso, os instintos de guerreira gritando que algo estava errado. Ao espiar pela entrada da tenda, viu Guti e Kino conversando com a xamã à luz de uma tocha trêmula. Ambos estavam armados, lanças nas mãos.
"Já estar prontos..." Ayla praguejou mentalmente, entrando de volta na tenda como um furacão.
Calçou as botas de pele com movimentos bruscos, bebeu água de um gole só — parte escorrendo pelo queixo —, e agarrou sua lança. O metal da ponta reluziu ao refletir as brasas moribundas de sua fogueira. Por um instante, parou, observando a cinza que ainda guardava um resquício de calor.
Ao atravessar a entrada da tenda, quase colidiu com Guti e Kino, que vinham buscá-la.
— Pronta? — perguntou Guti, os olhos cravados nela como se soubesse que ela dormira até o último segundo.
— Sim — respondeu Ayla, evitando o olhar de Kino, que observava sua face ainda inchada pelo sono.
Um trovão cortou o céu, seguido por um clarão que iluminou as nuvens em rolos negros e roxos. Ayla ergueu o rosto, sentindo o ar carregado de eletricidade.
— Chuva outra vez — comentou Kino, os dedos tamborilando no cabo da lança.
— Bom, reptites não gostar trovão. Vamos. — declarou Guti, virando-se
Taurik, no limite da aldeia, cruzou os braços, seu torso marcado por cicatrizes de guerra parecendo ainda mais imponente sob a luz das tochas.
— Boa sorte com velho medroso em Laruba— disse Taurik, cuspindo no chão. — Só você fazer ele mudar.
Guti emitiu um grunhido que poderia ser riso ou desdém. A xamã, por sua vez, estendeu as mãos para Guti, entregando-lhe um pequeno saco de couro.
— Devolver — disse a xamã.
Guti pegou e não respondeu. Apenas inclinou a cabeça.
Partiram, a lança de Guti cravada no chão a cada passo, marcando o ritmo. Ayla seguiu, a arma equilibrada na nuca, os braços pendurados nas extremidades com a naturalidade de quem nasceu carregando armas. Kino vinha atrás, a lança servindo de cajado, seus olhos varrendo a floresta ao redor como um falcão noturno.
Taurik e a xamã permaneceram na entrada da aldeia, observando o trio desaparecer na névoa noturna. A xamã virou-se para retornar à sua tenda, mas Taurik a segurou com um olhar carregado de dúvidas.
— Achar que velho Laruba concordar? — perguntou ele, cruzando os braços.
A xamã parou, o manto de penas balançando como asas quebradas.
— Laruba e Ioka ser fogo e água — respondeu, os olhos perdidos no horizonte. — Um queimar, outro apagar. Guti ser teimoso.
— Heh — Taurik cuspiu no chão, desdenhoso, e partiu em direção às fogueiras que ainda fumegavam.
[...]
Guti, Ayla e Kino adentravam a selva cerrada, a chuva fina transformando o chão em um tapete de lama escorregadia. Ayla caminhava à esquerda de Guti, os olhos fixos nas sombras, mas sua mente ainda vagava entre o abraço de Mika e o olhar de Kino sob a mangueira. Foi por isso que não viu o córrego oculto sob as folhas úmidas.
— Wah! — Seu pé afundou na água gelada, o corpo inclinando-se para trás. Antes que pudesse cair, uma mão firme a agarrou pelo braço.
— ! — Kino segurou-a, puxando-a de volta com força suficiente para fazê-la esbarrar em seu peito.
Ayla recuou como se tivesse tocado em brasa, os olhos faiscando de vergonha e irritação.
— Olhar pra onde, Ayla? — Guti comentou, sem se virar, continuando a caminhar. — Saber que ter água aí.
— Ayla esquecer. — ela rosnou, sacudindo a água da perna.
Kino manteve-se em silêncio, mas seus dedos ainda formigavam do toque dela. A chuva começou a cair mais forte, martelando as folhas como tambores de guerra, abafando qualquer tentativa de fala. Ayla ergueu uma sobrancelha para Kino, questionando-o em silêncio, mas ele apenas apontou para Guti, que avançava impávido.
Quando finalmente emergiram da selva, a chuva desabava em cortinas prateadas. Guti indicou um abrigo natural sob uma rocha saliente no penhasco, e os três se agacharam ali, encolhidos como animais encurralados. Ayla sentou-se no canto mais seco, encostando a lança na pedra fria. Kino ocupou o espaço ao seu lado, os ombros quase se tocando. Guti ficou próximo da entrada, observando a tempestade com um olho semicerrado.
— Esperar chuva parar — ordenou Guti, puxando o capuz sobre a cabeça.
Ayla encarou a cortina de água lá fora, os músculos tensos. Kino sacou uma pequena fruta de sua mão, havia colhido enquanto andavam.
— Ayla quer… — Kino começou, mas um trovão cortou suas palavras.
— O quê? — Ayla virou-se para ele, os olhos azuis brilhando na penumbra.
Kino estendeu a mão para ela, as frutinhas roxas amassadas entre seus dedos sujos de lama. Ayla olhou para as amoras e depois para o rosto dele, onde um sorriso tímido teimava em sobreviver, apesar da tensão. Estendeu a mão, os dedos dela roçando os dele por um instante mais longo que o necessário. O toque trouxe à tona memórias de infância: Kino rastejando entre arbustos para colher frutas silvestres, os dois lambuzados de suco, rindo até a barriga doer. Agora, porém, o riso estava enterrado sob camadas de palavras não ditas.
Ela colocou algumas amoras na boca, o azedume contrastando com o doce da lembrança.
— Kino pegar pouco — comentou, mastigando devagar.
— Escuro. Difícil ver — ele encolheu os ombros, os olhos fixos nela como se buscassem permissão para continuar.
Ayla não respondeu, mas também não desviou o olhar.
Guti tossiu, o som seco ecoando sob a rocha. Kino desfocou, o olhar fugindo para o ancião. Ayla, porém, não se moveu. Continuou a encará-lo, os olhos cravados, desafiando-o a continuar. Fixou-o como se pudesse arrancar a verdade de seu silêncio. O que ele quer? A pergunta queimava mais que as amoras na língua. Mas havia outra, mais profunda: O que ela queria que ele dissesse?
Guti arrastou-se até eles, o corpo pesado mergulhando no espaço frente os dois. Sentou-se como um urso velho diante de uma toca, os olhos cintilando sob o capuz encharcado.
Ayla fixou o olhar na cortina de chuva além do abrigo, os dedos passando suavemente sobre o próprio braço. Kino, ao seu lado, voltou a levar as frutinhas à boca com movimentos lentos, os olhos perdidos num ponto vazio da rocha úmida. Guti observou o gesto, esticando a mão calejada em sua direção.
— Dar — pediu o ancião, os dedos se fechando e abrindo.
Kino entregou-lhe duas das amoras, e Guti as esmagou entre os dentes com um ruído satisfeito. Ayla, sem desviar o rosto da tempestade, quebrou o silêncio:
— Laruba não ter nada pra Ioka. Por que ir?
Guti limpou o suco roxo do queixo com o antebraço, os olhos semicerrados.
— Ter coisas que Ayla não entender ainda.
Ela virou-se para ele. Seu olhar cravando o ancião, exigindo respostas. Guti, porém, limitou-se a cuspir um caroço no chão e cruzou os braços, mergulhando num silêncio intencional. Kino escorregou um pouco pela parede do abrigo, os joelhos dobrando-se num gesto cansado. Cruzou os braços sobre o peito, a cabeça inclinando para frente até o queixo quase tocar o osso da clavícula. Seus olhos se fecharam, mas as pálpebras tremiam levemente, não dormia, apenas economizava forças.
A chuva martelava o solo lá fora, um som tão constante que quase mascarava o farfalhar súbito na entrada do abrigo. Quase.
Três pares de olhos se se viraram ao mesmo tempo, lanças firmes nas mãos. Na abertura da fenda, um vulto se contorcia sob a água que caía em cascata. Dois olhos amarelos, estreitos e brilhantes, emergiram das sombras. O reptite encolheu-se sob a chuva, as escamas verdes pingando água, as garras cravadas na terra encharcada.
Ninguém respirou.
A criatura franziu o focinho, expondo uma fileira de dentes afiados. Um rosnado baixo ecoou, misturando-se ao trovão.
Foi o suficiente.
Ayla saltou como uma mola comprimida, o corpo projetando-se em arco. A lança cruzou o ar com um assobio, cravando-se no peito escamoso do reptite antes que ele pudesse recuar. A criatura tombou para trás, os olhos amarelos arregalados de surpresa, o rosnado transformado em um guincho estridente. A chuva lavou o sangue que escorria da ferida, diluindo-o em tons rosados na lama.
[...]
A manhã em Laruba respirava um ar úmido e fresco, a névoa que pairou sobre a clareira após a chuva da noite envolvia as casas baixas como um véu translúcido. A floresta ao redor apertava-se contra a aldeia, trepadeiras grossas e folhagens cerradas formando uma muralha quase impenetrável, onde a luz do sol mal conseguia espreitar. O chão, ainda lamacento, exalava o aroma terroso de folhas decompostas e raízes molhadas, misturado ao doce acre do suco de jubal que escorria dos cabelos dos aldeões.
As moradias, construídas com troncos entrelaçados e cobertas por folhas de palmeira, quase se confundiam com a vegetação. Tintas extraídas de cascas e frutas — verdes musgos, marrons terrosos e tons de carmim — camuflavam as estruturas. Uma anciã sentava-se à entrada de uma cabana, a cabeça inclinada enquanto uma criança esfregava suco de jubal em seus fios grisalhos, transformando-os num violeta opalescente. Ao lado, jovens espalhavam tigelas de pigmento sobre esteiras de palha, aproveitando os raios difusos que filtravam pelas nuvens para secá-los.
O silêncio foi quebrado pelo farfalhar de folhas. Guti emergiu primeiro, a lança manchada de sangue seco. Ayla e Kino surgiram atrás, molhados, com cicatrizes frescas cruzando os braços. A respiração de Ayla era controlada, enquanto Kino apoiava-se levemente na arma, os ombros caídos de cansaço.
Os aldeões congelaram. Mulheres interromperam o trançado de cestos, homens pausaram o afiamento de ferramentas de madeira. Um velho de cicatrizes ritualísticas entrelaçadas no rosto ergueu a mão em cumprimento.
— Velho amigo voltar — murmurou, os lábios retorcidos num meio-sorriso.
Guti respondeu com um aceno, os passos firmes indicando que conhecia cada pedra do caminho. Ayla, porém, chamou atenção. Uma menina de cabelo lilás, não mais que seis anos, fitava-a com olhos arregalados, fascinada pelas cicatrizes que adornavam seus braços e pela lança que reluzia mesmo sob a luz opaca. Ayla, tentando ser amigável, puxou os lábios para trás num sorriso que mais parecia uma ameaça, revelando dentes afiados — um hábito de guerreira de Ioka. A criança recuou de um salto, escondendo-se atrás das saias da mãe.
— Ayla assustar mais que reptite — comentou Kino, os cantos da boca tremendo para conter o riso.
Ela revirou os olhos, mas uma observação a fez franzir a testa: nenhum aldeão carregava armas. Em vez de lanças, viam-se apenas ferramentas de cultivo e cestarias. Sua atenção voltou-se para os arredores. Redes quase invisíveis pendiam entre as árvores, e poços camuflados com folhagens pontilhavam o perímetro.
— Eles não lutar... só esconder — Kino apontou para uma armadilha próxima, onde uma corda de fibra natural se misturava aos cipós.
— Ser aqui que quem não lutar em Ioka parar — resmungou Ayla, o desdém na voz mascarando uma ponta de incompreensão. Como podiam viver sem erguer uma lança?
Guti os conduziu até o centro da aldeia, onde a tenda do chefe se destacava pela simplicidade. Feita de peles de animais tratadas e sustentada por hastes de bambu, era decorada com penas de aves raras — turquesas, vermelhas e douradas — que tremeluziam ao vento. Nas paredes, mapas gravados em cascas de árvore detalhavam rotas da floresta e pontos de água.
Enquanto caminhavam, os olhares dos aldeões os seguiam: alguns curiosos, outros receosos. Uma mulher grávida afastou-se discretamente, cobrindo o ventre com as mãos.
— Laruba não ser Ioka — sussurrou Kino, mais para si mesmo. — Ninguém aqui lutar.
Guti parou diante da tenda do chefe de Laruba, a lança cravada no solo lodoso com um golpe seco. A postura era de pedra — ombros erguidos, queixo firme, os dedos ainda envoltos no cabo da arma. O silêncio que se seguiu era espesso, carregado do peso entre Ioka e Laruba. Ayla e Kino permaneceram alguns passos atrás, trocando olhares rápidos. Kino inclinara-se levemente sobre a própria lança, a fadiga disfarçada no arquejar suave. Ayla, porém, mantinha os braços cruzados, a lança atravessada entre eles, os músculos tensos. Seu rosto era uma máscara neutra, mas os olhos percorriam a aldeia: as redes entrelaçadas, as tintas secando ao vento úmido, os rostos que se viravam discretamente.
— Esperar aqui — ordenou Guti, virando-se por um instante. A voz não deixava espaço para questionamentos.
Ele desapareceu sob a pele de animal que servia de entrada, deixando o material balançar como um véu agitado por um vento invisível. Ayla soltou um suspiro abafado. Kino esboça um meio-sorriso, acostumado à falta de cerimônia do ancião.
Sem uma palavra, Ayla afastou-se até um tronco caído à margem da clareira. Deitou-se de costas, as mãos entrelaçadas sob a nuca, os cotovelos apontando para o céu encoberto como asas quebradas. Kino observou-a por um momento, depois sentou-se no chão ao lado do tronco, as costas encostadas na madeira apodrecida. Colheu uma folha seca e começou a torcê-la entre os dedos, o movimento mecânico acalmando a inquietação.
A aldeia respirava em surdina. Crianças corriam entre as cabanas, seus risos abafados pela névoa, enquanto outras se escondiam atrás de cestos de palha, espiando os estrangeiros. Adultos teciam, colhiam ou afiavam ferramentas, mas os olhares fugidios denunciavam a curiosidade. A garotinha de cabelo lilás reapareceu, trazendo uma pequena tigela de barro cheia de tinta roxa-vibrante. Avançou em passos hesitantes, pisando em folhas secas que estalavam como ossos quebrados.
— Meilin quer pintar feras de Ioka? — cochichou um ancião, os olhos brilhando de divertimento.
Kino percebeu a aproximação, mas fixou os olhos num ponto distante, fingindo interesse nas nuvens. Ayla, de olhos fechados, ouviu o farfalhar suave. Depois de algum tempo, quando abriu as pálpebras, a menina estava curvada sobre ela, o rosto tão próximo que via-se o reflexo de suas próprias cicatrizes nos olhos curiosos da criança.
— Nhurra? — a garota sussurrou, estendendo a tigela com mãos já manchadas de roxo.
Ayla sentou-se de repente, fazendo a menina recuar um passo.
— O que? — indagou Ayla.
A criança balançou a tigela, insistente, os dedos ensopados de tinta respingando gotas no chão. Ayla ia recusar, mas seu olhar pousou em Kino. O cabelo dele estava desastradamente tingido — mechas roxas entre os fios loiros, manchas na orelha esquerda, como se tinta tivesse caído do céu. Ele sorriu, envergonhado, os ombros encolhidos em uma expressão que remetia ao garoto que outrora roubava frutas dos arbustos mais altos.
“Parece um tronço”, pensou Ayla, o canto da boca tremendo sob o esforço para não rir.
A menina, encorajada pelo silêncio, mergulhou os dedos na tinta e esticou a mão em direção ao braço de Ayla. Ela não recuou.
O ar dentro da tenda era denso, impregnado pelo cheiro de ervas secas penduradas no teto e pela umidade que escorria das paredes de troncos. Penas de arara-azul e tucano adornavam as vigas, tremeluzindo como fantasmas coloridos a cada rajada de vento. Nos cantos, mapas gravados em cascas de árvore revelavam rotas antigas, rabiscos vermelhos marcando territórios perdidos.
Igor estava de costas, as mãos entrelaçadas atrás do torso largo, observando uma casca de árvore onde rios serpenteavam em tinta desbotada. Seus ombros, marcados por cicatrizes em padrões geométricos, tensionaram-se ao ouvir os passos de Guti.
— Laruba não ter interesse em aliança — declarou, a voz rouca como o ranger de galhos secos. — Sua guerra não ser nossa.
Guti não respondeu imediatamente. Caminhou até um manto de pele de urso no canto, desgastado pelo tempo, e sentou-se com lentidão calculada, como se cada movimento fosse um desafio ao silêncio hostil. A lança, ainda manchada de sangue reptite, repousou ao seu lado, ponta cravada no chão de terra batida.
— Tempo acabar, Igor — respondeu, os olhos fixos nas costas do chefe. — Reptites atacar forte. Se não mudar, até Laruba poder cair.
Igor virou-se bruscamente, os olhos estreitos sob sobrancelhas grisalhas
— E quem trazer raiva deles? — rosnou — Ioka. Ioka desafiar reptites. Ioka ser o perigo.
Guti inclinou-se para frente, as palmas apoiadas nos joelhos. A luz dançou sobre seu rosto, revelando marcas de batalhas mais antigas que as árvores ao redor.
— Vir ajudar. Fortes juntos — insistiu, a voz grave ecoando como um tambor de guerra abafado.
Igor soltou um riso seco, jogando o colar sobre uma mesa de madeira nodosa.
— Forte? — apontou para os mapas nas paredes, onde marcas vermelhas cercavam Laruba. — Reptites não vir aqui. Laruba escondida.
Guti ergueu a mão, interrompendo-o.
— Quando vir aqui, lutar com reptite muito perto. — Seus dedos traçaram um círculo no ar, unindo pontos invisíveis. — Reptites achar Laruba cedo ou tarde.
O silêncio que se seguiu foi cortado pelo tilintar de um amuleto de osso pendurado no teto. Igor cruzou os braços, o peito subindo em uma respiração profunda. Seus olhos, porém, permaneceram frios como a lâmina de uma faca enterrada na geada.
A tinta roxa deslizava pela nuca de Ayla como um riacho tímido, fria e suave, e ela reprimia um arrepio. Meilin, de pé na ponta dos pés, trabalhava com dedos leves, tocando-a como se seus fios loiros fossem fios de teia prestes a se romper. "Aqui… e aqui…", sussurrava a garota. Cada movimento era meticuloso, sagrado — as unhas pequenas deslizando entre as mechas, separando-as com a delicadeza de quem desembaraça pétalas de flor. Ayla permanecia imóvel, os músculos tensionados como cordas de arco, mas o coração batia irregular, uma doçura inocente.
— Cabelo ser como sol — murmurou Meilin, recuando para admirar a obra, esfregava as mãozinhas manchadas de roxo na túnica. A tinta dançava no loiro de Ayla, criando mechas que lembravam o céu quando o crepúsculo beija o dia. A garota inclinou a cabeça, um fio de preocupação na voz: — Tinta acabar…
Ayla não respondeu, mas seus olhos, involuntariamente, buscaram o reflexo na poça. Lá, viu-se irreconhecível: uma guerreira de cicatrizes e lanças, agora adornada por espirais roxas que serpenteavam como raízes vivas. Meilin sorriu, um raio de luz em meio à névoa, e Ayla sentiu algo desmoronar dentro do peito. A delicadeza da criança invadia-a, suave e persistente como a primeira chuva após a estiagem, lavando poeiras.
Meilin retomou o trabalho, os dedos agora entrelaçando pequenas tranças junto às raízes, como se quisesse costurar paz entre os fios revoltos. Ayla permitiu que os ombros cedessem o suficiente para que o sol, escondido entre as nuvens, pintasse de dourado a cena frágil entre a guerreira e a criança que, sem lanças ou medo, conquistava-a com tintas e sussurros.
Kino observava à distância, os cantos da boca curvados em um sorriso contido. Percebendo a falta de tinta, levantou-se e dirigiu-se a um grupo de crianças que espreitavam por trás de um cesto de palha.
— Vocês ser da tribo das tintas? — perguntou, agachando-se até ficar na altura delas.
Uma menina de olhos arregalados balançou a cabeça, apontando para sua lança.
— Você ser da tribo das lanças?
Kino riu, mostrando as mãos vazias.
— Ser da tribo que pintar. Quer ajudar?
As crianças trocaram olhares hesitantes, até que um menino corajoso pegou uma tigela de pigmento azul-esverdeado e correu para Kino. Logo, outras o seguiram, risos abafados misturando-se ao farfalhar das folhas.
Quando retornou com tigelas extras, Meilin aceitou-as como uma xamã recebendo oferendas. Ayla fixou os olhos em Kino. A tinta roxa mesclava-se ao seu cabelo, efêmera como uma trégua entre dois mundos. Enquanto Meilin recomeçava a pintar, Ayla pensou nas crianças de Ioka: mãos pequenas segurando lanças em vez de pincéis, cicatrizes substituindo tintas, silêncio engolindo risos. Fraqueza.